sábado, 18 de junho de 2011

Nuno Crato, O Ministro do Eduquês e, agora, do Politiquês

O actual ministro da educação definiu, num recente comício do PSD, o que seria o seu programa de governo para a educação.

Um programa, tal como o que propôs nesse comício, agrada, por instinto, a um grande número de professores que conheço. Por instinto, muitos professores, como muitas pessoas mal informadas ou que não têm acesso à informação, são conservadores e reaccionários a qualquer mudança qualitativa.







Nesse discurso, o actual ministro propõe 5 medidas:
  1. Exames aos alunos;
  2. Privilegiar o conteúdo, nos programas, em detrimento da forma e dos procedimentos;
  3. Avaliar e valorizar os professores;
  4. Exames de ingresso na carreira docente, como forma de disciplinar a formação de professores nas Escolas Superiores;
  5. "Acabar com o Ministério da Educação" e fazer dele um "Ministério pela Educação".
A grande medida estrutural é a dos exames nacionais aos alunos.
Segundo ele, esta medida:
  1. Resultará de:
    • Definição de "objectivos pedagógicos", o que, para ele, corresponde a uma valorização de conteúdos, em detrimento dos procedimentoas;
    • Estandardização de objectivos.  
  2. Implicará:
    • Encomenda de exames a um serviço externo ao Ministério da Educação;
    • Extinção do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE);
    • Elaboração de exames comparáveis entre si, ao longo dos anos.
  3. Promoverá:
    • A avaliação do sistema;
    • O fim da utilização dos resultados dos alunos como arma política;
    • A avaliação dos professores e a sua valorização, a partir dos resultados obtidos pelos seus alunos;
    • A inutilidade de um "Ministério da Educação" e a utilidade de um "Ministério pela Educação".
Não vou comentar a alteração formal a que alude quando fala do minstério da educação e do ministério pela educação, porque para um homem de conteúdo, esta foi uma daquelas afirmações metafóricas que, não tendo qualquer utilidade, pode sempre inspirar um qualquer publicitário com falta de inspiração, mais pela forma do que pelo conteúdo.

O que parece relevante é que, para o actual ministro da educação, Nuno Crato, a avaliação dos alunos, através de exames nacionais, é a trave mestra de todo o programa de governação. Para quem critica as concepções pedagógicas que centram a aprendizagem no aluno (deveria, às tantas, estar centrada nas paredes da sala, sendo suposto que não é o professor que está na aula para aprender), é curioso que veja nos exames nacionais a solução estrutural para todos os problemas da educação:
Através desses exames, será possível:
  1. Avaliar os professores e melhorar, por via disso, o ensino;
  2. Definir, sem os enunciar nos programas, os conteúdos programáticos;
  3. Desvalorizar os procedimentos das escolas e dos professores, face aos resultados obtidos;
  4. Redifinir o papel do Ministério da Educação:
    • Gerir o parque escolar
    • Cuidar dos salários
    • Encomendar exames
    • Pagar a quem faça os exames
    • Deixar as escolas trabalhar
Todo um programa de quem quer receber "o graveto", a fazer o menos possível, em nome de um ultra-liberalismo que fez dos USA (aonde vai buscar explicitamente muita da sua inspiração) um país com resultados escolares, nomeadamente a matemática, inferiores aos que a escola portuguesa obtém, com todos os seus defeitos, se nos fiarmos nas avaliações publicadas pela OCDE.

Para além disto, que já não é pouco, e sem entrar em pormenores, para mim, o seu programa de governação, enunciado nesse discurso, coloca-nos perante um político que mostra:
  • Um desconhecimento impressionante dos programas das várias disciplinas do ensino não superior. Pode não concordar com o facto de eles conterem orientações procedimentais, mas não pode dizer que pecam por falta de conteúdo. Aquilo que eles mais pormenorizam e aquilo em que eles são mais directivos é precisamente nos conteúdos.
  • Que confunde objectivos estandardizados com conteúdos programáticos. Por outras palavras, criticando a tendência do ministério para estabelecer procedimentos, o actual ministro estabelece um procedimento (definir objectivos estandardizados) que dispensa todos os outros. Por outro lado, é legítimo que defenda a substituição dos programas por um menu de objectivos estandardizados, mas não é legítimo afirmar que, deste modo, se substituem recomendações procedimentais por conteúdos.
  • Uma opinião sobre a relação entre competências e conhecimento científico nas fronteiras do mais absoluto absurdo. Segundo ele, o "ensino de competências desvaloriza o conhecimento científico" (fale por ele...). Na verdade confunde perigosamente a dificuldade enorme em ensinar competências, ou até a sua impossibilidade, com a necessidade de as desenvolver e avaliar.
Finalmente, fala de Sociologia da Educação e de Teorias da Educação (de Dewey, por exemplo) com um nível de rigor inferior ao que seria exigível a alunos do 11º ano.

Já o tinha ouvido, numa entrevista a um canal televisivo, a confundir a noção de construtivismo, associada ao relativismo cultural, com o construtivismo de Piaget que corresponde, este, a uma teoria epistemológica do conhecimento científico, que em nada, mas em nada mesmo, se assemelha ao relativismo construtivista e culturalista.

Critica Dewey por ser antigo e restaura o pensamento teórico mentalista de Herbart (o grande teórico da valorização dos conteúdos) que ainda é mais antigo.

Este ministro critica o eduquês dos outros, porque acha que o seu eduquês é melhor. E agora vai dedicar-se ao politiquês.

Se fizer aquilo que promete que é, basicamente nada, então podemos estar descansados: não só será considerado como um dos melhores ministros da Educação que alguma vez Portugal teve, por toda essa gente que gosta de opinar sobre educação do ponto de vista de quem não sabe o que isso é, como terá o apoio de muitos professores que só querem que não os chateiem.

Trocamos uma ministra com ideias erradas e prioridades trocadas, por uma outra sem ideias, e esta por um outro, ele, errado, com ideias inconsequentes e a raiar o absurdo.

Ouçam o discurso:

1 comentário:

Jorge Barbosa disse...

Neste blogue não são publicados comentários de pessoas que não se identifiquem, ou que se identifiquem de forma a que não sejam identificadas, sobretudo simulando nacionalidades que não coincidem com o tipo de escrita que usam.