domingo, 8 de dezembro de 2013

Insisto (talvez esteja a recuperar): Se querem que esta merda deixe de cheirar a merda, mandem os cagões lavar o cu, ou obriguem-nos a cagar em casa e a não abrir as portas. Um mundo de psicopatas é uma ofensa à humanidade

O que é a Filosofia
Jorge Barbosa
Filosofia
Ciências Sociais e Económicas
Setembro, 2013
O Q U E É A F I L O S O F I A

Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
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Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia

Coloca-se muitas vezes a questão de saber o que é a filosofia. Esta questão pode ser
colocada por um aluno do ensino secundário que se inicia nesta disciplina, tal como
pode ser colocada por uma pessoa de bem que manifesta muitas dúvidas sobre o
interesse de uma disciplina, muitas vezes, deteriorada na cena pública. Com efeito, a
filosofia está na moda, mas não é garantido que aqueles que asseguram o seu sucesso
mediático sejam os seus mais fieis servidores.
Acontece, como mostra a leitura dos grandes filósofos, que nada é mais
problemático do que a resposta a esta questão. Esta dificuldade relaciona-se com o
facto de a definição da filosofia fazer desde logo parte do próprio questionamento e
da prática filosófica. Cada autor encarna a intencionalidade filosófica à sua maneira,
reatualiza a sua natureza e as suas finalidades, de tal modo que pode até ser muito
interessante descrever as variações dessa intencionalidade. Neste texto, não se
procura apresentar a própria intencionalidade filosófica, mas tão só aquilo que ela
tem de mais essencial. Será, então, defendida uma certa ideia da filosofia, aquela que
Platão atribui a Sócrates e que inspira a maior parte do que é dito neste texto. Esta
ideia pode ser discutida por todos aqueles que, do interior da filosofia, são
conduzidos a problematizá-la. No entanto, não me parece que possamos, sem
contradição, desqualificar radicalmente a postura socrática e continuar a pretender
fazer filosofia.

O que é a filosofia? Qual é a sua natureza e quais são os seus desafios?
Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
A etimologia da palavra dá-nos uma primeira indicação. Segundo a terminologia
grega (φιλοσοφία é uma palavra composta de φιλεῖν, “amar” et de σοφία, “sabedoria,
saber”), a filosofia define-se como o amor à sabedoria.
O que é que isto quer dizer?

I) O filósofo não é o sábio.
É importante salientar que, ao apresentar-se como alguém que gosta de saber, o
filósofo anuncia claramente que não é um sábio. O φιλοσοφός (filósofo) não é o
σοφός (sábio).
A figura do filósofo, a figura de Sócrates, surge historicamente em contraste com a
do sábio. É certo que aquele (Sócrates) que, justamente, foi chamado o “pai da
filosofia” foi reconhecido pelo oráculo de Delfos como o homem mais sábio de
Atenas. Mas a resposta da Pitonisa à questão do seu amigo Querefonte vai
surpreender Sócrates. Não compreende que possa ser agraciado com essa honra, pois
se há alguma coisa que o distingue dos seus concidadãos é certamente a consciência
da sua ignorância. Proclama alto e bom som que não sabe nada. Só sei que nada sei,
diz ele. Embora questione os homens que se cruzam com ele na praça pública sobre
os grandes assuntos que deveriam preocupar a consciência humana, nem por isso se
apresenta como conhecedor das respostas às suas perguntas.
Estranha figura a deste homem cuja missão consiste em acordar os homens para a
consciência de si mesmos. Exorta-os a conhecerem-se a si mesmos, a refletir sobre o
mistério da sua condição. Reconduzido à sua verdade existencial, esta revela-se ser a
de um ser produzido pela energia do desejo. Viver, para cada um de nós, é desejar, é
projetar-nos para objetos ou para finalidades das quais depende a realização da nossa
existência. Mas o que é que desejamos verdadeiramente?
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O que é a Filosofia
Ao afirmar que só há um saber, o saber do Eros (o amor-desejo), [“Eu que garanto
só saber a respeito do amor” Banquete 177d], Sócrates apresenta-se como aquele que
dramatiza na sua pessoa a resposta a esta interrogação.
Isto significa que um ser de desejo é um ser privado da plenitude dos deuses. O
desejo é sinal de uma falha, de uma pobreza ontológica, pois não se deseja o que se
possui, mas só aquilo que nos faz falta. Mas para tender para aquilo que nos poderia
preencher, precisamos de ter consciência dessa falha e neste sentido o desejo é rico,
pois só aquele que tem a inteligência da sua miséria está em condições de a superar.
Sócrates é, portanto, ao mesmo tempo pobre e rico. Tal como o Eros (o amor), de que
ele se considera um arquétipo, a sua natureza é ambígua. Não tem a perfeição dos
deuses, mas tende para ela, e se dá o nome de sabedoria àquilo que permite ao desejo
ter a inteligência de si mesmo e não se deixar enganar por coisas sem saída, é porque
o soberano bem da vida não é oferecido aos homens como uma dádiva do céu. O seu
verdadeiro nome é felicidade. Acontece que não há felicidade possível sem a
compreensão daquilo que nos pode fazer felizes e sem que sejam ativados os meios
apropriados a essa compreensão. Por esta razão, o desejo filosófico ou o desejo de
sabedoria é no fundo o saber e a sabedoria do desejo.
A sabedoria não é de forma nenhuma a finalidade da existência. O nosso fim
supremo é o sucesso da nossa vida, a sua realização, só que sem a sabedoria não
conseguiremos alcançar essa realização plena. Por isso, a sabedoria é definida pelos
antigos como o método da vida boa e feliz.
Procedendo deste modo, conferem à filosofia uma dimensão existencial. O que está
em jogo na filosofia não é um simples exercício intelectual, pelo contrário é o nosso
ser e a nossa vida naquilo que é o mais importante para nós, isto é, a felicidade.
II) Análise do conceito de sabedoria.
À primeira vista, nos tempos que correm, temos de admitir que a sabedoria não
corresponde a um ideal muito em voga. A moda está em tudo o que é “contra” ou
“anti” (a contracultura, a antifolosofia, a anti-arte). Pouco importa que vejamos
claramente que aqueles que se consideram anticonformistas acabem por ser o cúmulo
do conformismo. Nem por isso, os ideais tradicionais da sabedoria deixam de parecer
fora de moda. A paixão, a alienação de si mesmo, o delírio, as exaltações sociais ou
pessoais revestem-se de maior prestígio numa sociedade do espetáculo do que as
sóbrias virtude do filósofo socrático. Em todo o caso, não nos deixemos cair na
ratoeira dos preconceitos do momento, e vejamos um pouco melhor o que devemos
entender por sabedoria.
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Num primeiro sentido, o termo sabedoria pode ser sinónimo de saber: filósofo é
aquele que gosta de saber e a sabedoria corresponde a um ideal teórico.
Num segundo sentido, o termo remete para uma certa maneira de conduzir a vida.
O filósofo é aquele que procura uma postura existencial marcada pelo sentido da
medida, pela serenidade, pelo acordo consigo mesmo e com o mundo: a sabedoria
corresponde então a um ideal prático.
Esta distinção entre polaridade teórica e polaridade prática da sabedoria é
puramente especulativa pois os dois ideais implicam-se mutuamente. É inútil pensar
que podemos conduzir bem a nossa vida sem sermos esclarecidos, ou que sejamos
capazes de exercer o nosso pensamento com retidão, na violência das paixões ou no
desregramento do comportamento.
Os antigos usavam duas palavras para designar as duas dimensões da sabedoria:
Sophia para o saber ou sabedoria teórica e Phronesis para a sabedoria prática ou
prudência.

A) A sabedoria como ideal teórico.
O recurso à ideia de sabedoria não é evidente quando o que está em questão é o
saber, pois estamos habituados a opor o saber à ignorância e não àquilo que é a
ausência de sabedoria, ou a falta de sabedoria que poderíamos qualificar de
“loucura”. Havendo comportamentos “loucos”, acreditamos então que há
pensamentos “loucos”.
Ora se entendermos a ignorância pelo seu carácter insensato, aberrante, irrefletido, e
infundado das representações e do discurso, temos também de reconhecer que a falta
de sabedoria não é monopolizada pelos grandes delirantes. Estes têm, pelo menos, a
vantagem de exibir com clareza o seu delírio, mas podemos questionar-nos sobre se
não levam ao limite uma desordem mais compreensível num hospital psiquiátrico do
que em qualquer outro lugar. Mas não nos basta ser sãos de espírito para estarmos ao
abrigo da ignorância, da cegueira, da estupidez e da baixeza. Talvez porque tem uma
consciência aguda daquilo que ameaça sempre o exercício do espírito, o filósofo é um
ser singular. Vive a vida como toda a gente, mas existe nele uma alteridade
irredutível, cujo preço é a solidão no melhor dos casos, ou a condenação à morte no
caso de Sócrates. É que a grande viragem a que se chama filosofia muda tudo, e
sobretudo a maneira habitual de pensar. Por esta razão, o filósofo é muitas vezes
percecionado como uma ofensa viva por todos aqueles que querem viver no
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quentinho das suas certezas. E não estão enganados. O pensamento é, por natureza,
perigoso. É como um vento forte que varre o conforto intelectual, subverte os hábitos
mentais e envergonha sempre a estupidez, a baixeza e a vulgaridade, para retomar
uma fórmula de paternidade nietschiana.
Mas o que é que isto quer dizer? Tentemos compreender, para já, o que é que
pensamento quer dizer.
1) Pensamento imediato, pensamento filosófico.
Todos os homens, desde o mais primitivo ao mais civilizado, fazem uso da sua
mente ou do seu espírito, uma vez que todos o têm. Se pensar consistisse somente
neste exercício do espírito ou da mente, teríamos de admitir que todos os homens
pensam. Todos, com efeito, vivem num mundo de significados e de valores. O real
não é para nenhum ser humano uma presença muda; é o correlato do seu desvendar,
realizado pela língua que falam e pela cultura a que pertencem. O mesmo é dizer que
todos procuram um sentido, todos comunicam significados e valores que estruturam a
sua relação com o mundo e com os outros homens. Neste sentido, o homem é um ser
pensante porque é um ser que fala. O pensamento não é monopólio de ninguém, é
próprio da condição humana, mesmo nas suas condições patológicas, pois as palavras
de um doente mental, por muito delirantes que sejam, não são completamente
destituídas de sentido.
No entanto, não basta usar o espírito, através da palavra, para pensar
verdadeiramente. A criança fala, mas, que se saiba, nenhuma criança é autor de uma
obra filosófica; por outro lado, durante milénios muitos homens viveram sem
saberem o que é que “pensar” quer dizer. É que há uma grande diferença entre o que
se pode chamar o pensamento imediato (ou espontâneo) e o pensamento filosófico,
ou pensamento muito simplesmente.
O pensamento imediato desenvolve-se sob o signo da passividade. O pensamento
filosófico desenvolve-se sob o signo da atividade ou da ação humana. O primeiro
corresponde à alienação dos domínios da mente e da moral, o outro corresponde à
reapropriação desse domínio.
Com efeito, na medida em que aquilo que pensamos é a caixa de ressonância de
representações construídas em nós pela educação que recebemos e pelo ambiente
cultural a que pertencemos, é errado pretender que somos o sujeito ativo dos nossos
pensamentos. Estes pensamentos são fabricados, independentemente da nossa
iniciativa intelectual, por instâncias exteriores das quais somos um brinquedo
inconsciente. Absorvemo-los com o leite materno e ao longo do nosso
desenvolvimento pelo simples facto de estarmos imersos num contexto familiar,
social, histórico, e por aprendermos a falar uma língua particular, pois nenhum língua
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é uma descodificação neutra da realidade. Todas analisam o real de acordo com
interesses e com tradições, na situação singular deste ou daquele grupo.
Daqui segue-se que, na sua forma imediata, o pensamento é menos da ordem do
pensado do que da ordem do não pensado. Funciona no interior de um sistema de
representações que o influenciam, sem que tomemos consciência dessa influência, o
que corresponde ao que podemos chamar determinismo ideológico. Deste modo, o
pensamento é o porta-voz de significados que o aprisionam. Foram tão bem
interiorizados que se solidificaram sob a forma de hábitos mentais que se impõem
com uma tal evidência que se constituem em obstáculos internos à atividade
pensante. Quer isto dizer que não pensamos como respiramos e que não basta
dispormos de um espírito ou de uma mente para pensar verdadeiramente. O
pensamento verdadeiro realiza-se sempre como pensamento do pensamento, isto é,
como movimento de retorno ou de reflexão da mente sobre si mesma, de forma a
submeter as suas produções a um exame racional. Atualiza-se, portanto, como
reflexão crítica sobre o que até então era evidente. Marca o momento em que o
sentido deixa de ser aceite como um significado recebido, para se transformar num
significado problemático. Constitui, portanto, um ponto de ruptura entre um antes e
um depois. Era a isto que Sócrates se referia ao dizer que a vida filosófica era uma
espécie de segundo nascimento. E isto vale tanto para toda a humanidade como para
cada homem particular.
Para a humanidade em geral, é claro o que se quer dizer, se nos lembrarmos que a
filosofia nem sempre existiu. Nasce em Mileto, na Ásia Menor no século VI a.C. Este
nascimento testemunha que a aventura humana não está substancialmente ligada à
aventura filosófica. Pelo contrário, a aventura humana está ligada ao pensamento
religioso ou mítico, que, esse, acompanha o homem em todas as épocas e em todos os
lugares. Com efeito, os homens sempre tiveram necessidade de tornar inteligível a
sua experiência, de compreender de onde vêm e para onde vão, de estabelecer regras
de convivência coletiva. As narrativas míticas desempenhavam a função de dar
resposta a estas questões. O pensamento mítico precedeu, então, o pensamento
racional. Tal como a ciência e a filosofia, a vocação do pensamento mítico era
produzir inteligibilidade. Forneceu aos nossos mais longínquos antepassados os
significados e os valores, sem os quais nenhuma vida humana seria possível, e
forneceu às sociedades humanas o cimento ideológico indispensável para a sua
coesão. Mas é claro que este modo de pensamento, que se conserva ainda bem vivo
para uma grande parte da humanidade, é fundamentalmente diferente do modo de
pensamento racional. Concede um grande espaço ao imaginário, em vez e no lugar da
razão. Faz intervir nas suas explicações a crença em seres sobrenaturais, cujas ações
estão no princípio das coisas tal como elas são, e tal como devem continuar a ser, sob
pena de grandes desordens cósmicas e sociais. Têm ainda uma característica muito
própria: é que as narrativas míticas não se apresentam como criações humanas, mas
como revelações divinas, recolhidas por iniciados que detêm a autoridade sobre o
grupo a que pertencem.
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Daqui decorre, então, que o “logos” (o discurso racional) é aquele que se constrói a
partir do mito e em ruptura com ele. Esta conquista é acompanhada na cena social por
profundas transformações. Com efeito, na justa medida em que os significados são
transmitidos no modo de uma tradição sagrada, a sua verdade não está sujeita a
discussão, como também não se discute o poder dos guardiães do templo que as
impõem. A submissão às verdades religiosas é uma submissão a uma tutela teológicopolítica,
da qual se pode dizer que não nos conseguimos libertar só por termos um
espírito ou uma mente capaz de nos garantir essa libertação. Este preconceito
idealista contribui para ignorar que a capacidade para iniciar uma relação crítica com
as verdades comuns está associada a condições históricas particulares.

2) As condições da emergência do pensamento filosófico.
a) Condições materiais de natureza económica.
Antes de mais, convém ter consciência de que, enquanto os recursos do espírito
estiverem comprometidos com a resolução de problemas práticos, os homens não têm
a liberdade para fazer da busca da verdade um fim em si mesmo. Não têm nem tempo
nem disponibilidade mental para isso. Neste sentido, a filosofia é um luxo, Está
ligada, por um lado, à riqueza de uma sociedade capaz de fazer surgir uma classe de
homens que têm a liberdade de colocar a si mesmos problemas teóricos, e, por outro
lado, a uma organização social desigual, pois, para que alguns disponham deste
tempo livre, é necessário que outros trabalhem para satisfazer as necessidades da
vida. Foi uma sociedade esclavagista que, esgotando as reservas imensas das suas
colónias em mão de obra útil à sua prosperidade, inventou a filosofia.
Não devemos ver, nesta verdade histórica perturbadora, uma consolidação da
atividade pensante, nem sequer considerar que a valorização da vida teorética pelos
gregos é puramente ideológica, como pretendem aqueles que só conseguem ver nos
seus valores a expressão e a justificação de uma situação de interesses instalados.
Pelo contrário, devemos compreender sobretudo o sinal de que as atividades
utilitárias relacionam-se, por natureza, com a servidão. Pois, antes de ser um
escândalo social, a alienação material é uma característica própria da condição
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humana na medida em que é coagida, pela necessidade de satisfazer as necessidades
animais, a dedicar-se a tarefas que não são fins em si mesmas, mas somente os meios
para atingir fins impostos pela natureza (comer, vestir-se, abrigar-se, proteger-se,
etc.). A humanidade está condenada a resolver o problema da sua sobrevivência,
antes de ser capaz de lutar pelas finalidades que lhe são próprias. O trabalho é,
portanto, o tributo que a humanidade tem de pagar pelo facto de fazer parte da
animalidade. Se não fosse assim, se a sua natureza fosse puramente espiritual, a
existência desenvolver-se-ia na liberdade, e os homens consagrar-se-iam às atividades
que são dignas de um homem livre. Os gregos antigos chamaram-lhes atividades
liberais, sendo a mais excelente de todas a atividade pensante, porque, ao filosofar, o
homem realiza a função que o distingue do animal e o define na sua humanidade.
“Assim, portanto, embora tenha sido para escapar à ignorância que os primeiros
filósofos se dedicaram à filosofia, é evidente que procuravam o saber pelo saber e
não como um fim utilitário. E o que se passou é prova disso mesmo; quase todas as
necessidades da vida e as coisas que interessam ao bem-estar estavam satisfeitas,
quando começaram a procurar uma disciplina deste género. Concluo que,
manifestamente, nós não temos nesta investigação nenhum interesse que lhe seja
estranho. Tal como consideramos livre aquele que é um fim para si mesmo e que não
existe para outro, assim também esta ciência é a única de todas as ciências que é uma
disciplina liberal, pois só ela é um fim para si mesma.” Aristóteles, Metafísica, Livro
A, Tomo1, Vrin, p. 9.

b) Condição política.
No entanto, não basta libertar-nos da dependência do trabalho para termos tempo
livre para pensar. Prova disso é o facto de um grande número de sociedades antigas
terem sido prósperas sem terem tornado possível o surgimento da filosofia. Faltavalhes
a condição política, que faz, da possibilidade de exercer o espírito de maneira
autónoma, um direito consagrado na relação política. Pois, enquanto for tabu pôr em
dúvida as verdades reveladas, enquanto o exercício livre do espírito é motivo de
prisão ou de morte, a liberdade de pensar é um logro. Pode ser privilégio de alguns
favorecidos pelos deuses, votados à clandestinidade, mas não faz sentido sobrestimar
as capacidades de um espírito solitário. Não conseguimos pensar sozinhos. É a troca,
a circulação das ideias, a sua discussão que permitem que cada um faça um uso
fecundo da razão. A filosofia implica uma sociedade, na qual os sábios e os
pensadores possam fazer um uso público da razão. Implica que os significados e os
valores sejam discutidos num amplo debate público. Quando os espíritos esclarecidos
são condenados ao silêncio, quando um pensamento único, que se apresenta sem
alternativa, se protege de todas as críticas pela intimidação, pelo terror, ou pela
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redução dos homens à pobreza, os espíritos não têm condições para se libertar do
obscurantismo em que estão encerrados. A Luzes e o seu progresso são uma tarefa
coletiva, muito mais do que um assunto pessoal ou privado.
Por outras palavras, ou nos libertamos coletivamente das superstições, ou então
mantemo-nos numa situação de menoridade intelectual e moral, imputável às
estratégias de domínio daqueles que pretendem salvaguardar o seu poder e, por
conseguinte, a covardia e a preguiça da maioria.
Não surpreende, portanto, que a sociedade que inventou a filosofia tenha sido
também aquela que inventou a democracia. Com esta invenção, a humanidade
reapropria-se do poder que tinha sido, até então, atribuído aos deuses, isto é o poder
de instituir o seu mundo. Os homens reivindicam o direito de decidir as regras da sua
vida coletiva, o direito a discutir a lei, a ser o autor da sua história. Esta reapropriação
do poder político marca a entrada das sociedades no regime da historicidade. Com
efeito, enquanto a fonte de sentido e da lei foi a instância divina, os homens não
tinham a liberdade de ser os autores da sua aventura. São heterónomos. Recebem a
sua lei do alto ou de qualquer outro lado. O invisível reina sobre o visível, o sagrado
governa o profano. O homem arcaico vive a sua história anulando-se. Todos os seus
actos são ritos de comemoração, de participação, de repetição do passado fundador.
Como diz Marcel Gauchet, “A religião é o enigma da nossa entrada em marcha-atrás
na história”
Neste sentido, o surgimento da filosofia traça uma fronteira entre o que se pode
chamar, como faz Jan Patocka, a “condição pré-histórica” da humanidade e a sua
“condição histórica”, que foi iniciada pelos Gregos. A atividade pensante implica,
portanto, uma situação de crise: crise do sentido, destruição do sentido recebido e dos
parâmetros tradicionais.Quer isto dizer que a filosofia se realiza como anarquia
intelectual e política, como triunfo dos arbítrios individuais, como niilismo e como
reivindicação de uma autonomia anómica? Claro que não. É que para compreender o
nascimento da filosofia temos de compreender também que as condições materiais e
políticas não são suficientes para explicar a intencionalidade filosófica. São ainda
indispensáveis condições intelectuais e morais.
c) Condição intelectual e moral.
As condições intelectual e moral são tão difíceis de explicitar como de pôr em
prática, uma vez que, garantidas as duas primeiras (económica e política), as
condições intelectual e moral dependem da iniciativa pessoal. Ora, nada é mais raro
nos homens do que um autêntico espírito filosófico, raro e perigoso como mostra o
destino de Sócrates. Em 399 a.C., Atenas condena o filósofo a beber a cicuta, e, como
todos sabemos, o governo ateniense não é nem uma tirania, nem um totalitarismo;
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pelo contrário, é uma democracia. Não será esta a prova de que, sendo a liberdade
política necessária para pensar livremente, ela não é suficiente? Outros poderes
alienantes entram em jogo em sociedades democráticas. Para além desses poderes,
outros ainda mais temíveis, por serem internos ao pensamento, têm de ser
ultrapassados.
Com efeito, espontaneamente, muitos acreditam que ser livre de pensar consiste em
pensar o que se quer. Confundimos facilmente a liberdade do pensamento com a
liberdade de opinião. Ora, opinar não é pensar. Todos os homens têm opiniões, mas
poucos são aqueles que pensam. Este é um paradoxo que surpreende muito mais
gente do que aquela que pode sentar-se comodamente num autocarro. Quanto mais os
homens sentem prazer em ouvir dizer que são livres de pensar, mais lhes é penoso ter
de se libertar daquilo que torna essa liberdade ilusória. Acreditam ingenuamente que
a liberdade do espírito é um dado, quando na verdade só pode ser uma conquista. Os
alunos do ensino secundário são, muitas vezes, testemunhas vivas disto mesmo.
Esperam da filosofia sobretudo satisfações narcísicas. Terão, se tudo correr bem,
oportunidade disso, mas, durante algum tempo, interpretam o criticismo filosófico
como uma oportunidade para fazer valer as suas opiniões.
O acto de pensar obedece a certas exigências. E quais são essas exigências? É o que
temos de ver agora para aprofundar a conversão intelectual e moral que a atividade
pensante implica. A atividade pensante não se desenvolve como se fosse um
movimento natural. Na verdade, pensar é parar. A atividade pensante também não é
expansão e exteriorização existencial, mas retorno sobre si e desenvolvimento das
potencialidades da interioridade espiritual. O acto através do qual o pensamento
reclama a sua liberdade é, assim, inseparável de uma certa atitude mental que define
o que é próprio do acordar filosófico.

3) As características do espírito filosófico.
a) A capacidade de se espantar ou de se maravilhar.
Um sujeito pensante é um ser que renova uma virtude da infância que consiste em
lançar um olhar surpreendido sobre o mundo. Porque é que existe alguma coisa e não
nada? Porque é que as coisas são como são e não de outro modo? A surpresa, o
espanto, a curiosidade ou desequilíbrio (como dirá Piaget mais tarde) são o oposto da
inércia intelectual. Esta inércia faz triunfar sobre as questões o conforto das respostas
recebidas. A criança é alguém que interroga com a vivacidade de um espírito curioso
e, ao mesmo tempo, aquele que confia na autoridade que lhe dá uma resposta. É
crédulo, e esta credulidade cedo o põe a dormir e o torna uma presa fácil de todos os
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endoutrinamento ideológicos. O despertar intelectual tem de singular o facto de
reencontrar a disponibilidade da infância para o questionamento, rompendo
simultaneamente com a ingenuidade e a passividade. As respostas comuns, vulgares,
já não são aquilo que encerram, mas, pelo contrário, aquilo que suscitam. Sobretudo
quando tomamos consciência da sua multiplicidade e da sua diversidade. Não será
impressionante que as respostas dos homens a questões idênticas sejam tão
diferentes? Como é possível não nos sentirmos interpelados pela heterogeneidade e
pelas contradições das representações humanas?
O filósofo Epicteto dizia, neste sentido, que o que dá início ao esforço de pensar é
menos o enigma do mundo do que as contradições das opiniões humanas que
pretendem resolver esse enigma. “Este é o início da filosofia. Todas as opiniões estão
certas? Como poderiam elas estar certas se são contraditórias? - Portanto nem todas
são certas, mas sê-lo-ão, pelo menos as nossas? E porque não as dos Sírios ou as dos
Egípcios? Porquê as minhas, mais do que as deste ou daquele?”
Espantar-se é o mesmo que romper com o que é familiar, por outras palavras, é ter a
experiência de que o que, até então, era evidente, deixou de o ser. Os grandes autores
não escondem que há nesta tomada de consciência uma vivência desestabilizadora,
angustiante. É grande a tentação para abandonar a tarefa iniciada. Reencontrar a
tranquilidade do significado recebido, mais do que comprometer-se na aventura da
busca da verdade. Esta requer coragem e que nos aventuremos a deixar de nos
alienarmos nos conteúdos de pensamento que estabelecem a nossa heteronomia, para
examinar só com os nossos recursos o que é que eles têm que justifique a sua
pretensão a ser verdadeiros. Será por preguiça ou por covardia, como diz Kant, que a
maior parte dos homens não assume esta responsabilidade do espírito? Renunciam a
servir-se do seu entendimento e parece que se satisfazem com a sua menoridade
intelectual. Que esta satisfação exista num contexto social em que a pluralidade de
opiniões não é um direito de cidadania, ainda podemos compreender. Mas o que nos
pode deixar perplexos é que a necessidade de distinguir o verdadeiro do falso não se
imponha imperativamente em sociedades onde se exprimem as opiniões mais
diversas e mais contraditórias. Como é possível que os homens se acomodem tão bem
à contradição das respostas dadas a uma mesma questão? Há aqui um duplo
escândalo para o espírito:
• Em primeiro lugar, o escândalo do conflito de opiniões. Impossível ficarmos
indiferentes a ele, se nos respeitarmos a nós mesmos, e se a preocupação com a
verdade for uma exigência essencial da razão humana. Duas proposições
contraditórias não podem ser simultaneamente verdadeiras. A necessidade de
de as submeter a um exame racional é um imperativo para quem queira
alcançar a verdade. Porque será que tão poucos homens se sentem na obrigação
de proceder a este exame? Isso significa que a maioria dos homens renunciou a
pretender a verdade? Pois, se pode haver verdade alguma, ela não pode variar
de indivíduo para indivíduo, de uma época para outra, de um grupo para outro.
Onde haja várias verdades, a coerência exige que não se acredite em nenhuma,
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que nenhuma seja verdade. Então a indiferença da maior parte dos homens
perante o conflito de opiniões testemunha que já fizeram o luto da verdade, que
a verdade já está morta? De modo nenhum, e este é o segundo escândalo.
• O segundo escândalo é o que corresponde à inconsequência humana em
reivindicar a verdade para enunciados que não tenham legitimidade a uma tal
pretensão. Pois como posso saber se o que digo é verdadeiro, enquanto não me
der ao trabalho de verificar se tenho razão em acreditar nisso? Ora, é a este tipo
de crenças que os Gregos chamaram doxa, palavra que podemos traduzir por
opinião. É opinião toda a afirmação que não tenha sido submetida a um exame
crítico. É recebida como verdadeira sem que nos preocupemos seriamente com
saber se esse enunciado é verdadeiro ou falso. Todas as nossas primeiras ideias
são, neste sentido, opiniões, isto é, preconceitos, ideias feitas. Acreditamos
que são verdadeiras, mas não sabemos se existem razões para acreditar nelas.
Não podemos, portanto, submetê-las a sólidas razões teóricas, embora nem por
isso deixem de ser certas para quem as enuncia. Estranho paradoxo: quanto
menos uma ideia é questionada no seu valor de verdade, mais ela se reveste do
prestígio de ser verdadeira, para o seu adepto. A opinião é dogmática por
natureza. Ora, o pior inimigo do espírito não é o erro, mas o dogma.
Reencontrar a faculdade de nos admirarmos é, portanto, o mesmo que despertar de
uma espécie de sono dogmático, e tornar-se disponível para uma verdadeira pesquisa
da verdade. Foi a esta tarefa que se dedicou Sócrates na relação que manteve com os
seus concidadãos. Através da prática da ironia (fingimento de ingenuidade), esforçase
por desestabilizar os seus interlocutores, por lhes devolver a liberdade que
perderam. Estão de tal modo convencidos de estar na posse das respostas às questões
colocadas por Sócrates, que nem se dão ao trabalho de refletir sobre elas. São
prisioneiros de um falso saber, que a interrogação socrática faz estalar, confrontandoos
com as suas contradições. Ao proceder deste modo, tomam consciência da sua
ignorância e podem dar início à conversão intelectual e moral de que se falou mais
acima. De facto, quando nos espantamos de novo, e, em primeiro lugar, com a nossa
própria inconsequência transformamos radicalmente a nossa relação com a verdade e
com os outros. Deixamos de nos colocar numa estratégia de poder, onde o desafio é
impor aos outros uma verdade de que pensamos ser os titulares.
b) Espírito de dúvida.
Duvidar consiste em deixar de estar submetido ao poder de uma certeza. A certeza é
uma servidão interior, pois corresponde a um estado de espírito que adere a um
conteúdo de pensamento que acredita (ou sabe) que é verdadeiro. Um espírito
absolutamente certo de alguma coisa está privado de toda a possibilidade de recuo
para examinar o valor do enunciado que o domina tanto quanto o espírito julga
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O que é a Filosofia
dominá-lo. Nada é pior do que a adesão massiva, sem reservas, sem dúvidas. Deixa
de haver jogo entre o pensamento e o seu conteúdo. Deixa de haver liberdade. Esta
relação com as ideias é própria do fanatismo, do sectarismo típico dos compromissos
ideológicos. Não podemos discutir com certos espíritos. Ou os confortamos nas suas
convicções, ou os ignoramos, ou batemo-nos para impedir a imposição social do seu
ponto de vista. A violência inerente à convicção destrói as condições de possibilidade
de um verdadeiro diálogo entre os homens, de tal forma que a capacidade para se
libertar dos seus malefícios é a primeira vitória do espírito sobre si mesmo. “Só os
tolos e as ostras aderem”, dizia Valéry para pôr em evidência a amplitude da
alienação consubstancial a esta maneira de nos relacionarmos com os significados e
com os valores. Esta é a razão pela qual o acto fundador da filosofia é, para
Descartes, a prática metódica da dúvida.
“Há já algum tempo, escreve Descartes, que me apercebi de que, desde os meus
primeiros anos de vida, tinha recebido numerosas opiniões falsas, e de que aquilo que
fundei desde então baseado em princípios tão mal fundamentados, só podia ser muito
duvidoso e incerto; de forma que faltava dedicar-me, por uma vez na vida, a desfazerme
de todas as opiniões que tinha recebido na minha educação, e a começar tudo de
novo desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas
ciências”.
Quer se trate de Sócrates com a ironia, de Descartes com a dúvida ou de Kant com
o projeto crítico, a exigência do pensamento atualiza-se sempre como uma atividade
de libertação daquilo que procede de uma autoridade diferente do espírito, para
fundamentar de novo o que pode ser considerado verdadeiro. Isto não significa que o
varrimento do pensamento seja uma destruição por princípio, como se nas crenças
humanas nada pudesse ser justificado por argumentos racionais. A dúvida não tem
preconceitos sobre a verdade ou sobre o erro do que é posto em dúvida. Pode
acontecer que, no termo do exame, a verdade do enunciado resista, mas então basearse-
á em razões diferentes das que sustentam a opinião. Normalmente, o que faz a
força da opinião é o hábito, o prestígio do número (somos de modo a que nos
pareçam verdadeiras as opiniões partilhadas pela maioria) e o prestígio da autoridade.
Ora, não é porque sempre se pensou algo que isso é verdadeiro, não é porque um erro
é partilhado pelo maior número de pessoas que ele se transforma em verdade, não é
por Aristóteles ter dito que isso é verdadeiro. Será ainda necessário garantir essa
verdade, através de um exame racional no termo do qual a verdade será teoricamente
estabelecida ou a falsidade desmascarada. Daqui decorre que uma verdade
teoricamente fundamentada é bem diferente de uma verdadeira opinião. Esta é uma
distinção subtil que estabelece que o que faz o carácter opinativo de uma afirmação
não é o conteúdo, que pode ter valor de verdade, é a relação que aquele que a formula
mantém com ela. É incapaz de a fundamentar racionalmente.
O espanto, a dúvida não são fins em si. São disposições intelectuais necessárias
para nos comprometermos no caminho do conhecimento, isto é para conduzir um
verdadeiro exame.
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O que é a Filosofia
c) Espírito de exame : reflexividade.
“Exame”é uma palavra já muito frequentemente utilizada. Mas não basta dizer a
palavra para que seja claro o que ela quer dizer. Como fazer para conduzir um exame
digno desse nome?
Examinar exige que procedamos a uma operação de reflexão no sentido óptico do
termo. Tal como o raio de luz é reenviado numa outra direção ao encontrar um
obstáculo, assim também refletir, para o pensamento, é fazer um retorno sobre si
mesmo, afim de se tomar a si mesmo como objeto e de se fundamentar através do
domínio das suas operações. Este é o desafio do esforço reflexivo. Restaurar o
espírito no papel que deveria ser o seu: o de estar no fundamento dos seus actos, de
ser o seu autor e o seu juiz. “Começar tudo de novo desde os fundamentos, se quiser
estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”, diz Descartes.
Por exemplo, sempre que falamos fazemos surgir algum sentido, mas a razão, em
nós, pode consentir esse sentido? É sensato ou absurdo, justificável ou não? Só a
reflexão faz aceder à inteligência aquilo que dizemos verdadeiramente. O mesmo se
passa com os valores. Sempre que falamos fazemos uso de noções que supõem
valorizações. Bem/mal, belo/feio, justo/injusto, útil/inútil, etc a fala comum está
saturada com estas distinções, mas qual é o valor dos valores que enunciamos? A
razão pode fazê-los seus?
Confirma-se aqui o que já foi dito: o pensamento filosófico não é um pensamento
de primeiro grau. O pensamento de primeiro grau é uma ausência de pensamento ou
um impensado que mantém uma relação imaginária consigo mesmo. Nós acreditamos
ser os autores, os sujeitos autónomos dos nossos discursos. A reflexão faz-nos tomar
consciência do que é uma ilusão. Desde que estejamos atentos aos actos do espírito
para interrogar o seu fundamento e a sua legitimidade, descobrimos que o sujeito do
discurso não refletido está longe de ser o sujeito racional.
Porquê? Porque não está imediatamente na posse de si mesmo. Embora a razão seja
uma faculdade natural, ela precisa de aprender para se desenvolver. Não foi por acaso
que Platão mandou inscrever no frontão da Academia: “Ninguém que não seja
geómetra entra aqui”. É significativo que, com esta frase, se queira dizer que não se
rompe com a opinião por um truque de varinha mágica. Se entendermos por sujeito
racional, o sujeito que respeita, no exercício do espírito, os princípios da razão ,
convém submetermo-nos primeiro à dura escola das matemáticas, para termos a
experiência de que não podemos dizer o que nos apetece, que a razão tem a sua
necessidade e que só aquele que se conforme a ela conduz com retidão o seu
raciocínio. As matemáticas são uma disciplina onde aprendemos a não fazer batota
com a razão. Incitam-nos a desconfiar da imaginação, das impressões sensíveis, e
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O que é a Filosofia
sobretudo revelam-nos a dimensão universal da razão. O teorema de Pitágoras não
depende do arbítrio do seu inventor, nem de contingências históricas ou culturais.
Tem uma necessidade e uma universalidade que é a da razão, faculdade comum a
todos os homens desde que se conformem às suas exigências. O mesmo é dizer que
não podemos esperar dos homens uma verdadeira reflexão filosófica na ausência de
uma formação intelectual muito rigorosa. Na apresentação que Platão faz do caminho
do conhecimento, na imagem da linha (República, 510 a), a esfera da inteligibilidade
está dividida em duas partes: a primeira é o conhecimento dianoético (matemáticas e
aquilo a que hoje chamamos ciências); a dialética ou filosofia só surge depois, em
segundo lugar. Platão achava que só nos podemos dedicar à filosofia na idade adulta
e solidamente armados no plano intelectual e moral. Na ausência destes prérequisitos,
o exame filosófico corre o risco de não passar de um jogo estéril para
adolescentes prontos para degradar a crítica filosófica em crítica pela crítica, cujo
desafio já não é a pesquisa da verdade, mas a afirmação de si mesmo. Devemos, diz
ele, “dar aos adolescentes e às crianças uma educação e uma cultura apropriadas à sua
juventude; cuidar bem do seu corpo no momento em que está em crescimento e em
formação, afim de o preparar para servir a filosofia, e, depois, quando alcança a idade
adulta, reforçar os exercícios que lhe são próprios” Eduquemo-los então para
assumir as responsabilidades sociais (obrigações políticas e militares) que ainda falta
tempo para se entregarem à filosofia, pois esta supõe não só a formação, mas também
a experiência e sobretudo um espírito libertado de qualquer outra preocupação que
não a da busca da verdade.
A pedagogia de Platão não separa, portanto, a formação intelectual da formação
moral, pois num sentido profundo, que já não nos é familiar, as virtudes intelectuais
são solidárias com a virtude moral. Com efeito, o que impede o espírito de se exercer
segundo a sua necessidade própria, remete para a dominação, em nós, de uma
dimensão do nosso ser disposta a subverter a nossa razão. Esta dimensão é a
dimensão sensível. Antes de sermos um ser de razão, somos um ser sensível. Somos
um corpo no sentido lato e é verdade que este torna impossível uma relação
transparente com a verdade. O real é refratado na parede dos nossos sentidos, da
nossa particularidade empírica com as suas determinações sexuais, sociais, históricas,
ideológicas, religiosas. Temos desejos, paixões ou interesses, e basta observar os
homens para nos apercebermos de que colocam o espírito ao serviço da justificação e
da satisfação desses desejos, paixões e interesses. Raciocinam muito, mas a lógica
que aplicam é uma lógica passional. Não utilizam a sua razão para examinar se as
definições nas quais baseiam os seus discursos seguem o caminho da razão, ou se as
crenças que defendem têm coerência e legitimidade. Utilizam-na para provar uma
verdade colocada no exterior da razão por uma instância heterogénea à sua natureza
(desejo, interesse, posição religiosa, situação de classe, etc.). A razão é portanto
cegada e alienada. Não é livre para um exercício autónomo pois é instrumentalizada.
Esta instrumentalização da razão, ao serviço de fins ou de princípios que revelam o
imenso poder da nossa parte irracional, é verdadeiramente imoral para Platão. Para
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ele, a razão é o que faz a dignidade do homem e é aquilo que o homem deve honrar
para respeitar a sua própria humanidade. Mas isso passa por um trabalho de si sobre
si que consiste numa ascese: libertar-se interiormente daquilo que nos mantém
prisioneiros, libertar os olhos da alma, da prisão do corpo para retomar as metáforas
de Platão. Platão fala de purificação e de catarse. Esta é uma operação dolorosa para a
qual é necessário que o sujeito tenha boas disposições naturais. Se a natureza não
ajudar um pouco, é inútil pensar que esta tarefa esteja ao alcance dos homens.
Sócrates dedicava-se a ela com a ironia. Confrontando os seus interlocutores com as
suas contradições, desmascarava a verdade da opinião que consiste em confundir o
verdadeiro com o que nos é útil, vantajoso ou conveniente. Punha em evidência que o
império da opinião é o império em cada um de nós daquilo que temos de afastar para
começar a compreender o que quer dizer pensar. Mas o sentido da ironia não se
esgota nesta função crítica. Ela é inseparável da maiêutica, isto é, de uma estratégia
cujo desafio é o de revelar cada um à verdade de si mesmo. Trata-se de descobrir que
somos uma alma, que esta é a única autoridade a respeitar e que dedicada ao domínio
de si mesma, é templo da verdade. Por esta razão, ele comparava a sua arte à da sua
mãe, parteira que ajudava a dar à luz os corpos, enquanto ele ajudava a dar à luz os
espíritos.
Talvez seja inútil chamar a atenção para o facto de encontrarmos aqui a
condição mais difícil de realizar. É ela que traça a fronteira entre um autêntico
espírito filosófico e espíritos intelectualmente muito poderosos, mas estranhos à
intencionalidade filosófica.
Esses espíritos muito poderosos, beneficiando de um grande poder social,
chamavam-se, na época de Sócrates, sofistas. Protágoras, Górgias, Hípias, Prodicus
são grandes representantes do pensamento sofista. Todos são estrangeiros em Atenas,
onde se instalam periodicamente para ensinar, fazendo-se pagar caro pelas suas
lições. Sócrates foi acusado de ser um deles e, no entanto, tal como Platão o apresenta
nos seus Diálogos, Sócrates dramatiza a oposição da filosofia à sofística. Isto levanos
a defender que, historicamente, a filosofia emerge de uma dupla ruptura:
• No século VI a.C., com a escola de Mileto, uma ruptura com o pensamento
mítico.
• No século V a.C., com Sócrates, uma ruptura com o pensamento sofista.
4) Pensamento sofista - pensamento filosófico.
O ensino dos sofistas é difícil de unificar. Jaeger salienta que todos têm um ponto
comum: “todos professavam a aretê (a virtude) política, e todos desejavam inculcá-la,
aumentando as capacidades intelectuais pelo exercício.”
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O que é a Filosofia
Dizemos, esclarece ele ainda “que eles foram os fundadores da ciência da educação.
Criaram, com efeito, a pedagogia e (…) a cultura intelectual, ainda nos dias de hoje,
segue em larga medida as vias que eles traçaram”.
Num certo sentido, os sofistas são os fundadores do humanismo. Isto é muito claro
na narrativa do mito de Prometeu, que Platão põe Protágoras a recitar no diálogo com
o mesmo nome. Protágoras mostra que a natureza do homem é produzir cultura,
graças à sua inteligência técnica e moral. Donde a necessidade de desenvolver as
competências politécnicas, aquilo a que se dedica o sofista Hípias cujo objetivo era
sem dúvida, ao contrário da caricatura que Platão faz dele, ensinar as regras gerais
das artes (arte=saber fazer). Tendo também necessidade de explorar os recursos da
fala, pois a linguagem é o instrumento do pensamento e a fala, o meio através do qual
os homens exercem o poder de uns sobre os outros. Górgias, por exemplo, diz que
que se a arte do seu irmão médico é fazer um diagnóstico e prescrever um tratamento,
a sua arte, a de Górgias, é a de persuadir o doente a escutar os conselhos daquele que
possui a ciência. E na assembleia do povo, se o especialista militar ou jurídico não
tiver eloquência, o demagogo, especialista em oratória, acabará por receber a maioria
dos votos. A educação sofista baseia-se, portanto, no relevo atribuído às técnicas e à
linguagem, os dois atributos da natureza humana.
Platão manifesta uma extrema severidade com a paideia (educação sofista). Acusa,
no Sofista, esses mestres de um novo género, de serem “fazedores de prestígios”. Esta
crítica incide sobre dois pontos essenciais: por um lado, o sofista sabe falar de uma
arte que não possui, e, por outro lado, o logos tem uma vocação diferente daquela que
lhe é atribuída pelos sofistas. Platão reprova-lhes o facto de serem fazedores de
opinião e de não se preocuparem com uma autêntica educação intelectual e moral,
apesar de utilizarem frequentemente o nome de educação para aquilo que propõem.
O diferendo aparece claramente na oposição Protágoras - Sócrates. No entanto,
todos os diálogos platónicos põem em cena a alteridade de duas maneira de conceber
o homem e a sua vocação.
Este é o ponto essencial onde o espírito filosófico se afirma na sua originalidade,
correndo o risco de ser incompreendido pela maioria. Com efeito, hoje, tal como
antes, os homens sentem-se mais próximos de Protágoras do que de Sócrates, e no
conflito que opõe os dois, Protágoras parece ter saído a ganhar ao longo da história.
O que é que ensinava Protágoras de tão típico para a nossa modernidade?
Defendia que “o homem era a medida de todas as coisas”.
Se esta afirmação quisesse dizer que só a autoridade da razão humana poderia
decidir sobre o verdadeiro e o falso, sobre o bem e o mal, sobre o justo e o injusto,
Sócrates não criticaria Protágoras por isso. Só que, quando Sócrates fala da razão,
atribui-lhe um significado muito diferente do de Protágoras. Para o sofista, a razão é
uma faculdade subordinada. É um simples meio de argumentação e de raciocínio ao
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O que é a Filosofia
serviço das paixões e dos interesses de uns e de outros. Para Sócrates, não sendo um
simples instrumento, a razão é uma instância particular, uma faculdade dos princípios
e dos fins, cujas exigências o homem deve respeitar para se colocar à altura da
dignidade que ela lhe confere. “O homem é a alma”, diz Sócrates, para querer dizer
que a razão define uma dimensão de superioridade ontológica irredutível à dimensão
empírica, na qual Protágoras pretende circunscrever a natureza humana.
A alternativa não apresenta qualquer equívoco:
• Para um, o homem é uma simples realidade fenoménica entre todas as outras,
regida pelo conjunto das leis que o determinam, sendo que o exercício da razão
não escapa a esta determinação; para o outro, o homem tem uma especificidade
metafísica e moral, de que a razão é uma prova convincente.
• Num caso, o homem é um simples ser reduzido à sua particularidade empírica,
o sexo, o temperamento, a classe social, a situação histórica; no outro caso, o
homem é dotado da capacidade de transcender estes limites para aceder a um
horizonte de universalidade.
Se a particularidade empírica for inultrapassável, estamos, então, condenados a ver
o mundo através do nosso prisma particular, e, não sendo possível a razão adquirir
qualquer autonomia, teremos de renunciar à ideia de uma verdade universal e eterna.
Haverá tantas maneiras possíveis de nos representarmos as coisas quantos os sujeitos
falantes que contactam com elas, tantos reais quantos os sujeitos que vivem neles.
Cada um teria a sua verdade. O conflito de opiniões seria um destino inevitável.
Protágoras defende, portanto, a opinião subjetivista e relativista em matéria de
verdade. Embora seja permitido dizer tudo, haveria certas ideias que seriam mais
úteis do que outras, face às necessidades ou aos interesses da maioria.
Se fosse assim, a tarefa dos homens não seria a de procurar a verdade, a de se
aplicar a discriminar o verdadeiro do falso; seria a de aprender a tornar socialmente
poderosas as ideias mais úteis, e isto passaria pelo domínio da linguagem. Por
conseguinte, os sofistas ensinam a retórica ou a arte de argumentar para serem
capazes de defender uma ideia com tanta habilidade quanto a sua contrária. No
fundo, ensinam uma arte de falar, dessolidarizada com a preocupação da verdade e do
valor. A isto podemos chamar uma técnica de poder.
Que esta prática sofista do discurso é contrária à prática socrática, isso já o
sabemos. Mas, agora, a questão é a de saber se conseguimos seguir Sócrates
respeitando os seus pressupostos. Pois parece verdade que, entre os homens, as
opiniões são soberanas. Se, por vezes, os homens conseguem superar os seus
diferendos, não é tanto pela virtude do exame racional, mas pela submissão à regra
política da democracia. Esta determina, com efeito, que, quando os membros de um
grupo não se entendem, o conflito é resolvido pelo princípio da maioria. Feliz
instituição esta da maioria que permite superar a violência das discórdias humanas
sem recurso às armas. No entanto, uma maioria é sempre uma força, e não é por
sermos o mais forte que temos necessariamente razão. Neste sentido, a democracia
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O que é a Filosofia
não nos afasta de uma relação de força. Quer se queira quer não, a razão nunca
poderá ajoelhar-se diante do altar da força. Sendo a instância que nos permite
representar o direito, a razão aspira a garantir o seu reino sem recorrer a meios que
lhe sejam externos. Por isso, o filósofo é o homem que chama o outro à razão para
romper com a violência ideológica e política. Sonha com uma cidade em que o
diálogo, conduzido no silêncio das paixões e na ascese dos interesses e dos desejos,
poderia unir os homens num mundo comum. Pensando bem, este mundo comum não
é um fantasma de pesadelo. A matemática certifica sem reservas essa possibilidade,
na medida em que a sua verdade tem uma universalidade que se fundamenta
exclusivamente na sua necessidade racional. Porque é que a razão, sendo o
instrumento de medida comum na matemática, não poderia desempenhar a mesma
função em outros objetos, para além dos números e das figuras? O muito realista
Hobbes reconhecia que, se a verdade matemática fosse, como a questão do justo e do
injusto, presa das paixões e dos interesses humanos, poderíamos apostar que os
homens a discutiriam com uma violência e uma parcialidade comparáveis às de que
fazem prova habitualmente. E tem toda a razão. Se formos realistas, Protágoras e
Hobbes não vêem mal as coisas. A luta de interesses, a violência das oposições, a
instrumentalização ideológica da razão, hoje como antes, são um dado observável.
Isto é absolutamente incontestável, mas não significa que devamos aprovar o facto,
como se o que é devesse ser a medida do que pode ser. Com efeito, nada autoriza a
redução do homem à sua dimensão empírica e a negar que ele tem a possibilidade de
transcender os limites, onde os sofistas se esforçam por o encerrar. Só a má fé poderia
levar-nos a negar que a razão seja em nós um poder de transcendência.
Se não fosse assim, como poderíamos ter redigido e aprovado uma Declaração
universal dos direitos do homem? Não terá sido necessário romper com o cárcere
etnocêntrico, que todos os amantes da determinação étnica da condição humana
consideram inultrapassável de facto e legítima de direito? Foi o poder de
transcendência da razão que permitiu a cada membro de uma cultura libertar-se do
seu enraizamento cultural, iniciar uma relação crítica com os valores e com os
significados particulares do seu grupo, denunciar a sua unilateralidade e promover a
ideia de valores e significados universalizáveis de direito. O racionalismo das Luzes
nasceu em solo europeu, mas não é a expressão da particularidade da cultura
ocidental. É a honra do género humano.
Do mesmo modo, é o poder de transcendência que permite que cada um, por pouco
esforço que faça, tome consciência do seu desejo de se libertar da sua lei, para deixar
de confundir o verdadeiro, de acordo com a norma do espírito, com o que parecer ser
verdadeiro, segundo a norma dos afetos.
É também esse poder da razão que entra em jogo, quando somos capazes de nos
elevar acima da parcialidade dos nossos interesses, para determinar as nossas
reivindicações justas, e para tentar conciliá-los de modo a que o interesse de uns não
seja a desgraça dos outros.
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O que é a Filosofia
Por outras palavras, Sócrates pede-nos que encaremos a razão como, para as
questões do sentido e do valor, o equivalente do instrumento de medida matemática,
para a questão das quantidades. Pede-nos que façamos amizade através do espírito, e
que, por esta via, subvertamos a nossa relação com a verdade e com os outros. Já não
se trata de acreditar que estamos na posse da verdade, mas de a procurarmos em
conjunto, uma vez que a sua pedra de toque não são as pretensões de uns ou de
outros, mas o acordo dos espíritos no uso da razão.
5) A sabedoria filosófica como alternativa à violência.
A missão socrática revela-se, então, uma missão de reconciliação dos homens no
seio de uma comunidade razoável.
Missão utópica, diria um pessimista. A natureza das paixões é bem mais poderosa
no homem do que a sua natureza racional. Pior ainda, há quem diga que a ideia de
uma transcendência possível do espírito é uma ilusão idealista. Não foi preciso
esperar pelos filósofos da desconfiança (Marx, Nietzche, Freud) para instruir o
processo da razão concebida como instância universal e transcendente. Esse já era o
debate levado a cabo pelos sofistas. A crise da razão é tão velha como a emergência
do seu magistério. Dá ideia de que a razão nunca pôde verdadeiramente impor a sua
autoridade e que nunca desestabilizou a autoridade da tradição ou de Deus, a não ser
quando impôs às sociedades a anarquia racionalista, quando as capacidades de
argumentação e de demonstração do espírito foram mobilizadas e as ideias mais
loucas não deixaram de ter defensores talentosos, muito hábeis na arte de lhes
conferir alguma verosimilhança.
Missão difícil, responderia o filósofo, mas não impossível. Com efeito, o que torna
possível um verdadeiro diálogo entre os homens não é diferente daquilo que torna
possível a atividade pensante, isto é: uma formação intelectual rigorosa, mas
sobretudo uma conversão intelectual e moral, que está ao alcance de todos os seres
dotados de espírito. Só duas condições são requeridas:
Por um lado, um sentido do problema, da ambiguidade das coisas e da sua
complexidade.
• Por outro lado, a convicção de que não podemos ter razão sozinhos, de que o
que é fundamentado na razão, também o deve ser em direito por qualquer outro
ser que disponha de razão.
Nos antípodas do homem prisioneiro da opinião, o pensador é, então, o homem que
se distancia de um conteúdo de pensamento, o examina fazendo a si mesmo as
objeções que os outros poderiam fazer-lhe se estivessem presentes. O pensamento
procede, ao contrário da discussão com o outro, por questões e respostas num
percurso, cujo desafio é superar uma dificuldade teórica. Pois se não houvesse
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O que é a Filosofia
problema inicial, se tudo fosse claro para o espírito humano a ponto de todos estarem
de acordo, não havia necessidade de fazer luz sobre ele. O pensamento é, então,
dialógico por essência, porque se defronta com o problemático. Por que razão?
• Platão diz que o pensamento é um diálogo da alma consigo mesma.
• Hannah Arendt, do mesmo modo, acentua esta ligação do pensamento com o
diálogo, sublinhando que para pensar é preciso ser vários em um.
• E Kant lembra que a ética do pensamento implica três máximas diretoras: 1)
Pensar por si mesmo ou máxima do pensamento sem preconceitos, 2) Pensar
colocando-se no lugar dos outros ou máxima do pensamento alargado, 3)
Pensar estando sempre de acordo consigo mesmo ou máxima do
pensamento consequente.
A segunda máxima de Kant é particularmente significativa. A estreiteza de espírito
é típica daquele que não consegue libertar-se das suas palas, porque é incapaz de se
abrir à alteridade. A unilateralidade do seu olhar, a determinação da sua situação
condenam-no a fechar-se numa espécie de mitologia pessoal ou comunitária. Faltalhe
a mais elementar sabedoria, que consiste em assegurar a retidão do seu próprio
entendimento.
Segue-se, então, que o método do pensamento é a dialética ou a arte do diálogo
elevada à dignidade de um processo de reflexão. Uma questão pede respostas que o
exame conduz a problematizar pacientemente até ao ponto em que, separado o trigo
do joio, podemos entender-nos sobre verdades comuns. A verdade é revelação de um
“nós” em lugar de um “tu” e um “eu”.
Os sucessos da reflexividade ou da regressão dialética não devem, todavia, fazernos
esquecer os seus fracassos. Acontece, com efeito, que ela desemboca, por vezes
em aporias, isto é, em impasses teóricos, como podemos ver nos diálogos socráticos
de Platão. Mais fieis às lições do mestre, em vez de alcançarem uma conclusão
positiva, esses diálogos confrontam o espírito com a sua própria impotência. O que
não corresponde a um conhecimento menor ou menos importante do que qualquer
outro, porque, como diz Descartes, se descobrirmos que “o conhecimento procurado
ultrapassa inteiramente o alcance do espírito humano, não nos julgaremos, por isso,
mais ignorantes, pois saber isso não é uma ciência menor do que saber o que quer que
seja”.
Pela dimensão aporética do seu discurso, Sócrates é mais modesto do que o seu
discípulo Platão. Para este, a dialética é o método da ciência, o meio de nos
elevarmos dos conhecimentos sensíveis ou opinativos às Ideias ou inteligíveis puros,
que a alma pode apreender intuitivamente no termo da ascensão dialética.
A experiência aconselha-nos a ter menos pretensões. Se a reflexão nos permite
romper com o dogmatismo da opinião, não é para o substituir pelo dogmatismo
filosófico. Não há um saber absoluto em filosofia. Mas isto não é uma forma de
defender o ceticismo. Neste aspeto, o filósofo é como o cientista. Só que, enquanto o
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O que é a Filosofia
cientista duvida de tudo exceto da ciência, o filósofo duvida de tudo exceto das
virtudes do exame para esclarecer o juízo e fundamentar racionalmente as verdades.
Ao dizer verdade racional, não se quer dizer verdade indiscutível. Para isso, seria
necessário que o percurso ou método racional se pudesse fundamentar a si mesmo.
Ora, o percurso filosófico (de resto, tal como o método científico) não consegue fazer
valer-se de semelhante garantia. Um e outro baseiam-se num fundamento irracional
que consiste em fazer da razão a única medida em assuntos de verdade. Mas é
impossível demonstrar a validade deste pressuposto, pois, qualquer que seja a sua
demonstração, ela pressupõe o que é para demonstrar, isto é, que o respeito pelos
princípios lógicos e pelos princípios racionais são necessários para garantir a retidão
do pensamento que os pretenda validar.
Disto é prova a impotência do filósofo racionalista para convencer aquele que
desqualifique a razão nessa pretensão, e considere, por exemplo, que só a submissão
a uma autoridade divina pode ser uma via para a salvação. Neste sentido, a antinomia
das vias abertas por Atenas e por Jerusalém (as religiões de Abraão - judaísmo,
cristianismo e islamismo) é irredutível. A pluralidade humana ainda pressupõe outras
vias, porventura, igualmente irredutíveis. Para elucidar uma questão, vários
princípios podem ser formulados, cada um com a sua legitimidade. Por exemplo,
podemos defender que uma distribuição justa das honras, dos poderes e das riquezas
é uma repartição igualitária, baseando-se este princípio na ideia de que os homens são
iguais em dignidade, quaisquer que sejam os seus talentos ou o seu mérito. Mas
podemos também defender que é injusto tratar igualmente seres desiguais em talento
e em mérito e que, portanto, a cada um deve ser dado aquilo que merece. Será
possível superar o diferendo entre partidários de uma ordem social igualitarista e uma
outra hierarquia?
Racionalmente, não. Estamos aqui em presença de um enigma, em termos
filosóficos, pois não nos é possível demonstrar que um princípio é mais racional do
que outro. Os dois têm a sua legitimidade do ponto de vista da razão.
Mas podemos compreender razoavelmente que esta igual legitimidade fundamenta
a obrigação de respeitar o direito de ambas as reivindicações, esforçando-nos por as
conciliar. O princípio igualitário impõe a atribuição dos mesmos direitos e deveres
básicos a todos os membros do grupo. Todos os cidadãos são iguais em direitos. Um
voto vale um voto, por exemplo, independentemente do mérito de cada um na
apreciação das condições políticas. Todos podem também pretender o respeito pelas
liberdades fundamentais (expressão, pensamento, circulação proteção, etc.). O
princípio hierárquico induz-nos a não nos limitarmos a uma definição abstrata do ser
humano e a ter em conta características concretas de uns e de outros. Em todas as
atividades, alguns são mais eficazes socialmente do que outros que até podem ser
mais talentosos. Seria injusto não proporcionar bens aos talentos e aos méritos,
sobretudo se estes só dependerem da responsabilidade das pessoas, o que pressupõe
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O que é a Filosofia
que, socialmente, seja garantida a igualdade de oportunidades para desenvolver e
manifestar o mérito e o talento de cada um.
Poder-se-ia desenvolver o mesmo tipo de raciocínio, a propósito da antinomia do
princípio de liberdade e do princípio de igualdade, ou então a propósito do debate
muito atual a respeito do casamento de homossexuais. Estas antinomias, mais do que
racionalidade, exigem de nós razoabilidade.
Estes exemplos sugerem que os problemas são complexos e que o erro consiste
sempre em nos fecharmos numa posição unilateral. Este é o risco que corre aquele
que se limita a fazer um uso estritamente formal da razão. Este uso estritamente
formal da razão é surdo à ambiguidade das coisas, aos constrangimentos do real, à
pluralidade humana, e, sobretudo e mais grave, à exigência moral. A preocupação em
sermos racionais não deve dispensar-nos de sermos razoáveis.
A sabedoria filosófica exige, então, o senso da proporção e a recusa de todas as
formas de integrismo racional. Implica uma espécie de revelação que é sobretudo a
dedicação a uma tarefa crítica, mais do que a certezas dogmáticas, ainda que
racionalmente fundamentadas.
É neste sentido que podemos concordar com Russell quando afirma que o valor da
filosofia reside na sua própria incerteza. Incerteza, recordemos, sobre os resultados,
não sobre a sua função libertadora da estupidez e da baixeza e ainda menos sobre a
sua capacidade para se desenvolver numa comunidade de seres razoáveis, unidos pela
consciência da sabedoria que lhes falta e pela vontade de, em conjunto, honrar as suas
exigências.
B) A sabedoria como ideal prático.
Se esta parte fosse objeto de um aprofundamento comparável ao da parte anterior,
este texto sobre a natureza da intencionalidade filosófica correria o risco de ser bem
indigesto.
Limitemo-nos, então, a algumas breves considerações.
Já compreendemos que o filósofo é o homem que se sente na obrigação de honrar
as exigências da razão, na medida em que esta é, para ele, o fundamento da dignidade
humana e uma instância universal e transcendente, à altura da qual o filósofo deve
ascender. Ora, viver não é só pensar, conhecer, julgar, é também agir, projetar-se de
um certo modo no mundo, lutar por finalidades que acreditamos poderem trazer-nos
felicidade. Tal como a sabedoria teórica é a virtude do espírito nas suas operações
intelectuais, assim também a sabedoria prática é a virtude do homem na condução da
sua vida.
Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
Nos dois casos, convém recordar que somos seres dotados de razão e que a razão é
o fundamento das nossas obrigações.
Nas suas exortações aos seus concidadãos, Sócrates não diz coisa diferente desta.
Cuidar da sua alma, eis o que o que deveria ser a grande missão do homem.
Estas palavras de Sócrates não devem ser interpretadas como um convite ao
ascetismo. As necessidades da nossa natureza animal têm a sua legitimidade, o bemestar
material também, mas não devem constituir o horizonte da vida ao ponto de lhes
serem sacrificadas as exigências espirituais e morais e de comprometer os bens
superiores da existência humana que são a liberdade, a felicidade e a moralidade.
As palavras de Sócrates visam incitar cada um a dar ordem ao seu ser e à sua ação,
afim de projetar em si e fora de si a face da natureza humana, naquilo que faz a sua
superioridade ontológica.
Não tendo nascido tão pouco para se conformar à ignorância e à menoridade
intelectual, o homem só tem de obedecer à lei que lhe pode ser dada pela sua razão.
Temos, então, de nos libertar da escravidão da nossa natureza sensível, para
simultaneamente potenciar o exercício do espírito e libertá-lo da cegueira das paixões
e potenciar a sua forma de se constituir em obstáculo à violência e à indignidade.
Assim se compreende que a sabedoria teórica e a sabedoria prática são
interdependentes. Uma não se desenvolve sem a outra. O erro tem sempre origem na
subversão da exigência razoável levada a cabo por uma lei diferente da nossa, quer se
trate dos desejos, das paixões ou dos interesses.
Esta preocupação em dar uma expressão razoável à parte irracional da sua natureza
é típico daquele que ama a sabedoria. É essa a sua tarefa. Para ele, cada ser da
natureza tem uma função que só ele pode cumprir. Os gregos chamam virtuoso
àquele que realiza a sua missão de forma excelente. Assim, tal como a virtude do
olho é ver bem, assim também a virtude do homem é desenvolver a sua faculdade
razoável na sua excelência, sob a forma das virtudes intelectuais e virtudes morais.
Umas e outras virtudes supõem a coragem de preservar, em todas as ocorrências da
vida, os valores do espírito: a verdade no plano teórico, o melhor e o mais justo, no
plano prático. Só a reflexão nos liberta da loucura e torna possível uma vida boa e
feliz:
Boa vida, é o mesmo que dizer vida preocupada em não ter de se envergonhar
consigo mesma. Antes de ser uma relação com os outros, a moral é uma
relação consigo mesmo. Trata-se de viver em boa companhia connosco
próprios, estar de acordo com o nosso juiz interior, aquele que encarna o ponto
de vista do universal e que pergunta sempre: “podes universalizar o princípio
da tua ação?” “podes querer que todos os homens ajam como tu ages?”.
Reconhece-se aqui o imperativo categórico tal como Kant o enuncia. A
experiência comum, de onde decorre este imperativo, é a de um ser que tem
Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
que viver com a testemunha interior que cada um traz em si. Não interessa a
forma como esta dualidade é teorizada (dualismo do sensível e do inteligível
em Platão e em Descartes, dualismo da natureza e da liberdade, do fenómeno e
do nómeno em Kant). O essencial é compreender que não podemos viver em
paz na O que é a Filosofia
Jorge Barbosa
Filosofia
Ciências Sociais e Económicas
Setembro, 2013
O Q U E É A F I L O S O F I A

Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
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Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia

Coloca-se muitas vezes a questão de saber o que é a filosofia. Esta questão pode ser
colocada por um aluno do ensino secundário que se inicia nesta disciplina, tal como
pode ser colocada por uma pessoa de bem que manifesta muitas dúvidas sobre o
interesse de uma disciplina, muitas vezes, deteriorada na cena pública. Com efeito, a
filosofia está na moda, mas não é garantido que aqueles que asseguram o seu sucesso
mediático sejam os seus mais fieis servidores.
Acontece, como mostra a leitura dos grandes filósofos, que nada é mais
problemático do que a resposta a esta questão. Esta dificuldade relaciona-se com o
facto de a definição da filosofia fazer desde logo parte do próprio questionamento e
da prática filosófica. Cada autor encarna a intencionalidade filosófica à sua maneira,
reatualiza a sua natureza e as suas finalidades, de tal modo que pode até ser muito
interessante descrever as variações dessa intencionalidade. Neste texto, não se
procura apresentar a própria intencionalidade filosófica, mas tão só aquilo que ela
tem de mais essencial. Será, então, defendida uma certa ideia da filosofia, aquela que
Platão atribui a Sócrates e que inspira a maior parte do que é dito neste texto. Esta
ideia pode ser discutida por todos aqueles que, do interior da filosofia, são
conduzidos a problematizá-la. No entanto, não me parece que possamos, sem
contradição, desqualificar radicalmente a postura socrática e continuar a pretender
fazer filosofia.
!
O que é a filosofia? Qual é a sua natureza e quais são os seus desafios?
Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
A etimologia da palavra dá-nos uma primeira indicação. Segundo a terminologia
grega (φιλοσοφία é uma palavra composta de φιλεῖν, “amar” et de σοφία, “sabedoria,
saber”), a filosofia define-se como o amor à sabedoria.
O que é que isto quer dizer?

I) O filósofo não é o sábio.
É importante salientar que, ao apresentar-se como alguém que gosta de saber, o
filósofo anuncia claramente que não é um sábio. O φιλοσοφός (filósofo) não é o
σοφός (sábio).
A figura do filósofo, a figura de Sócrates, surge historicamente em contraste com a
do sábio. É certo que aquele (Sócrates) que, justamente, foi chamado o “pai da
filosofia” foi reconhecido pelo oráculo de Delfos como o homem mais sábio de
Atenas. Mas a resposta da Pitonisa à questão do seu amigo Querefonte vai
surpreender Sócrates. Não compreende que possa ser agraciado com essa honra, pois
se há alguma coisa que o distingue dos seus concidadãos é certamente a consciência
da sua ignorância. Proclama alto e bom som que não sabe nada. Só sei que nada sei,
diz ele. Embora questione os homens que se cruzam com ele na praça pública sobre
os grandes assuntos que deveriam preocupar a consciência humana, nem por isso se
apresenta como conhecedor das respostas às suas perguntas.
Estranha figura a deste homem cuja missão consiste em acordar os homens para a
consciência de si mesmos. Exorta-os a conhecerem-se a si mesmos, a refletir sobre o
mistério da sua condição. Reconduzido à sua verdade existencial, esta revela-se ser a
de um ser produzido pela energia do desejo. Viver, para cada um de nós, é desejar, é
projetar-nos para objetos ou para finalidades das quais depende a realização da nossa
existência. Mas o que é que desejamos verdadeiramente?
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O que é a Filosofia
Ao afirmar que só há um saber, o saber do Eros (o amor-desejo), [“Eu que garanto
só saber a respeito do amor” Banquete 177d], Sócrates apresenta-se como aquele que
dramatiza na sua pessoa a resposta a esta interrogação.
Isto significa que um ser de desejo é um ser privado da plenitude dos deuses. O
desejo é sinal de uma falha, de uma pobreza ontológica, pois não se deseja o que se
possui, mas só aquilo que nos faz falta. Mas para tender para aquilo que nos poderia
preencher, precisamos de ter consciência dessa falha e neste sentido o desejo é rico,
pois só aquele que tem a inteligência da sua miséria está em condições de a superar.
Sócrates é, portanto, ao mesmo tempo pobre e rico. Tal como o Eros (o amor), de que
ele se considera um arquétipo, a sua natureza é ambígua. Não tem a perfeição dos
deuses, mas tende para ela, e se dá o nome de sabedoria àquilo que permite ao desejo
ter a inteligência de si mesmo e não se deixar enganar por coisas sem saída, é porque
o soberano bem da vida não é oferecido aos homens como uma dádiva do céu. O seu
verdadeiro nome é felicidade. Acontece que não há felicidade possível sem a
compreensão daquilo que nos pode fazer felizes e sem que sejam ativados os meios
apropriados a essa compreensão. Por esta razão, o desejo filosófico ou o desejo de
sabedoria é no fundo o saber e a sabedoria do desejo.
A sabedoria não é de forma nenhuma a finalidade da existência. O nosso fim
supremo é o sucesso da nossa vida, a sua realização, só que sem a sabedoria não
conseguiremos alcançar essa realização plena. Por isso, a sabedoria é definida pelos
antigos como o método da vida boa e feliz.
Procedendo deste modo, conferem à filosofia uma dimensão existencial. O que está
em jogo na filosofia não é um simples exercício intelectual, pelo contrário é o nosso
ser e a nossa vida naquilo que é o mais importante para nós, isto é, a felicidade.
II) Análise do conceito de sabedoria.
À primeira vista, nos tempos que correm, temos de admitir que a sabedoria não
corresponde a um ideal muito em voga. A moda está em tudo o que é “contra” ou
“anti” (a contracultura, a antifolosofia, a anti-arte). Pouco importa que vejamos
claramente que aqueles que se consideram anticonformistas acabem por ser o cúmulo
do conformismo. Nem por isso, os ideais tradicionais da sabedoria deixam de parecer
fora de moda. A paixão, a alienação de si mesmo, o delírio, as exaltações sociais ou
pessoais revestem-se de maior prestígio numa sociedade do espetáculo do que as
sóbrias virtude do filósofo socrático. Em todo o caso, não nos deixemos cair na
ratoeira dos preconceitos do momento, e vejamos um pouco melhor o que devemos
entender por sabedoria.
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O que é a Filosofia
Num primeiro sentido, o termo sabedoria pode ser sinónimo de saber: filósofo é
aquele que gosta de saber e a sabedoria corresponde a um ideal teórico.
Num segundo sentido, o termo remete para uma certa maneira de conduzir a vida.
O filósofo é aquele que procura uma postura existencial marcada pelo sentido da
medida, pela serenidade, pelo acordo consigo mesmo e com o mundo: a sabedoria
corresponde então a um ideal prático.
Esta distinção entre polaridade teórica e polaridade prática da sabedoria é
puramente especulativa pois os dois ideais implicam-se mutuamente. É inútil pensar
que podemos conduzir bem a nossa vida sem sermos esclarecidos, ou que sejamos
capazes de exercer o nosso pensamento com retidão, na violência das paixões ou no
desregramento do comportamento.
Os antigos usavam duas palavras para designar as duas dimensões da sabedoria:
Sophia para o saber ou sabedoria teórica e Phronesis para a sabedoria prática ou
prudência.

A) A sabedoria como ideal teórico.
O recurso à ideia de sabedoria não é evidente quando o que está em questão é o
saber, pois estamos habituados a opor o saber à ignorância e não àquilo que é a
ausência de sabedoria, ou a falta de sabedoria que poderíamos qualificar de
“loucura”. Havendo comportamentos “loucos”, acreditamos então que há
pensamentos “loucos”.
Ora se entendermos a ignorância pelo seu carácter insensato, aberrante, irrefletido, e
infundado das representações e do discurso, temos também de reconhecer que a falta
de sabedoria não é monopolizada pelos grandes delirantes. Estes têm, pelo menos, a
vantagem de exibir com clareza o seu delírio, mas podemos questionar-nos sobre se
não levam ao limite uma desordem mais compreensível num hospital psiquiátrico do
que em qualquer outro lugar. Mas não nos basta ser sãos de espírito para estarmos ao
abrigo da ignorância, da cegueira, da estupidez e da baixeza. Talvez porque tem uma
consciência aguda daquilo que ameaça sempre o exercício do espírito, o filósofo é um
ser singular. Vive a vida como toda a gente, mas existe nele uma alteridade
irredutível, cujo preço é a solidão no melhor dos casos, ou a condenação à morte no
caso de Sócrates. É que a grande viragem a que se chama filosofia muda tudo, e
sobretudo a maneira habitual de pensar. Por esta razão, o filósofo é muitas vezes
percecionado como uma ofensa viva por todos aqueles que querem viver no
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O que é a Filosofia
quentinho das suas certezas. E não estão enganados. O pensamento é, por natureza,
perigoso. É como um vento forte que varre o conforto intelectual, subverte os hábitos
mentais e envergonha sempre a estupidez, a baixeza e a vulgaridade, para retomar
uma fórmula de paternidade nietschiana.
Mas o que é que isto quer dizer? Tentemos compreender, para já, o que é que
pensamento quer dizer.
1) Pensamento imediato, pensamento filosófico.
Todos os homens, desde o mais primitivo ao mais civilizado, fazem uso da sua
mente ou do seu espírito, uma vez que todos o têm. Se pensar consistisse somente
neste exercício do espírito ou da mente, teríamos de admitir que todos os homens
pensam. Todos, com efeito, vivem num mundo de significados e de valores. O real
não é para nenhum ser humano uma presença muda; é o correlato do seu desvendar,
realizado pela língua que falam e pela cultura a que pertencem. O mesmo é dizer que
todos procuram um sentido, todos comunicam significados e valores que estruturam a
sua relação com o mundo e com os outros homens. Neste sentido, o homem é um ser
pensante porque é um ser que fala. O pensamento não é monopólio de ninguém, é
próprio da condição humana, mesmo nas suas condições patológicas, pois as palavras
de um doente mental, por muito delirantes que sejam, não são completamente
destituídas de sentido.
No entanto, não basta usar o espírito, através da palavra, para pensar
verdadeiramente. A criança fala, mas, que se saiba, nenhuma criança é autor de uma
obra filosófica; por outro lado, durante milénios muitos homens viveram sem
saberem o que é que “pensar” quer dizer. É que há uma grande diferença entre o que
se pode chamar o pensamento imediato (ou espontâneo) e o pensamento filosófico,
ou pensamento muito simplesmente.
O pensamento imediato desenvolve-se sob o signo da passividade. O pensamento
filosófico desenvolve-se sob o signo da atividade ou da ação humana. O primeiro
corresponde à alienação dos domínios da mente e da moral, o outro corresponde à
reapropriação desse domínio.
Com efeito, na medida em que aquilo que pensamos é a caixa de ressonância de
representações construídas em nós pela educação que recebemos e pelo ambiente
cultural a que pertencemos, é errado pretender que somos o sujeito ativo dos nossos
pensamentos. Estes pensamentos são fabricados, independentemente da nossa
iniciativa intelectual, por instâncias exteriores das quais somos um brinquedo
inconsciente. Absorvemo-los com o leite materno e ao longo do nosso
desenvolvimento pelo simples facto de estarmos imersos num contexto familiar,
social, histórico, e por aprendermos a falar uma língua particular, pois nenhum língua
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O que é a Filosofia
é uma descodificação neutra da realidade. Todas analisam o real de acordo com
interesses e com tradições, na situação singular deste ou daquele grupo.
Daqui segue-se que, na sua forma imediata, o pensamento é menos da ordem do
pensado do que da ordem do não pensado. Funciona no interior de um sistema de
representações que o influenciam, sem que tomemos consciência dessa influência, o
que corresponde ao que podemos chamar determinismo ideológico. Deste modo, o
pensamento é o porta-voz de significados que o aprisionam. Foram tão bem
interiorizados que se solidificaram sob a forma de hábitos mentais que se impõem
com uma tal evidência que se constituem em obstáculos internos à atividade
pensante. Quer isto dizer que não pensamos como respiramos e que não basta
dispormos de um espírito ou de uma mente para pensar verdadeiramente. O
pensamento verdadeiro realiza-se sempre como pensamento do pensamento, isto é,
como movimento de retorno ou de reflexão da mente sobre si mesma, de forma a
submeter as suas produções a um exame racional. Atualiza-se, portanto, como
reflexão crítica sobre o que até então era evidente. Marca o momento em que o
sentido deixa de ser aceite como um significado recebido, para se transformar num
significado problemático. Constitui, portanto, um ponto de ruptura entre um antes e
um depois. Era a isto que Sócrates se referia ao dizer que a vida filosófica era uma
espécie de segundo nascimento. E isto vale tanto para toda a humanidade como para
cada homem particular.
Para a humanidade em geral, é claro o que se quer dizer, se nos lembrarmos que a
filosofia nem sempre existiu. Nasce em Mileto, na Ásia Menor no século VI a.C. Este
nascimento testemunha que a aventura humana não está substancialmente ligada à
aventura filosófica. Pelo contrário, a aventura humana está ligada ao pensamento
religioso ou mítico, que, esse, acompanha o homem em todas as épocas e em todos os
lugares. Com efeito, os homens sempre tiveram necessidade de tornar inteligível a
sua experiência, de compreender de onde vêm e para onde vão, de estabelecer regras
de convivência coletiva. As narrativas míticas desempenhavam a função de dar
resposta a estas questões. O pensamento mítico precedeu, então, o pensamento
racional. Tal como a ciência e a filosofia, a vocação do pensamento mítico era
produzir inteligibilidade. Forneceu aos nossos mais longínquos antepassados os
significados e os valores, sem os quais nenhuma vida humana seria possível, e
forneceu às sociedades humanas o cimento ideológico indispensável para a sua
coesão. Mas é claro que este modo de pensamento, que se conserva ainda bem vivo
para uma grande parte da humanidade, é fundamentalmente diferente do modo de
pensamento racional. Concede um grande espaço ao imaginário, em vez e no lugar da
razão. Faz intervir nas suas explicações a crença em seres sobrenaturais, cujas ações
estão no princípio das coisas tal como elas são, e tal como devem continuar a ser, sob
pena de grandes desordens cósmicas e sociais. Têm ainda uma característica muito
própria: é que as narrativas míticas não se apresentam como criações humanas, mas
como revelações divinas, recolhidas por iniciados que detêm a autoridade sobre o
grupo a que pertencem.
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O que é a Filosofia
Daqui decorre, então, que o “logos” (o discurso racional) é aquele que se constrói a
partir do mito e em ruptura com ele. Esta conquista é acompanhada na cena social por
profundas transformações. Com efeito, na justa medida em que os significados são
transmitidos no modo de uma tradição sagrada, a sua verdade não está sujeita a
discussão, como também não se discute o poder dos guardiães do templo que as
impõem. A submissão às verdades religiosas é uma submissão a uma tutela teológicopolítica,
da qual se pode dizer que não nos conseguimos libertar só por termos um
espírito ou uma mente capaz de nos garantir essa libertação. Este preconceito
idealista contribui para ignorar que a capacidade para iniciar uma relação crítica com
as verdades comuns está associada a condições históricas particulares.

2) As condições da emergência do pensamento filosófico.
a) Condições materiais de natureza económica.
Antes de mais, convém ter consciência de que, enquanto os recursos do espírito
estiverem comprometidos com a resolução de problemas práticos, os homens não têm
a liberdade para fazer da busca da verdade um fim em si mesmo. Não têm nem tempo
nem disponibilidade mental para isso. Neste sentido, a filosofia é um luxo, Está
ligada, por um lado, à riqueza de uma sociedade capaz de fazer surgir uma classe de
homens que têm a liberdade de colocar a si mesmos problemas teóricos, e, por outro
lado, a uma organização social desigual, pois, para que alguns disponham deste
tempo livre, é necessário que outros trabalhem para satisfazer as necessidades da
vida. Foi uma sociedade esclavagista que, esgotando as reservas imensas das suas
colónias em mão de obra útil à sua prosperidade, inventou a filosofia.
Não devemos ver, nesta verdade histórica perturbadora, uma consolidação da
atividade pensante, nem sequer considerar que a valorização da vida teorética pelos
gregos é puramente ideológica, como pretendem aqueles que só conseguem ver nos
seus valores a expressão e a justificação de uma situação de interesses instalados.
Pelo contrário, devemos compreender sobretudo o sinal de que as atividades
utilitárias relacionam-se, por natureza, com a servidão. Pois, antes de ser um
escândalo social, a alienação material é uma característica própria da condição
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O que é a Filosofia
humana na medida em que é coagida, pela necessidade de satisfazer as necessidades
animais, a dedicar-se a tarefas que não são fins em si mesmas, mas somente os meios
para atingir fins impostos pela natureza (comer, vestir-se, abrigar-se, proteger-se,
etc.). A humanidade está condenada a resolver o problema da sua sobrevivência,
antes de ser capaz de lutar pelas finalidades que lhe são próprias. O trabalho é,
portanto, o tributo que a humanidade tem de pagar pelo facto de fazer parte da
animalidade. Se não fosse assim, se a sua natureza fosse puramente espiritual, a
existência desenvolver-se-ia na liberdade, e os homens consagrar-se-iam às atividades
que são dignas de um homem livre. Os gregos antigos chamaram-lhes atividades
liberais, sendo a mais excelente de todas a atividade pensante, porque, ao filosofar, o
homem realiza a função que o distingue do animal e o define na sua humanidade.
“Assim, portanto, embora tenha sido para escapar à ignorância que os primeiros
filósofos se dedicaram à filosofia, é evidente que procuravam o saber pelo saber e
não como um fim utilitário. E o que se passou é prova disso mesmo; quase todas as
necessidades da vida e as coisas que interessam ao bem-estar estavam satisfeitas,
quando começaram a procurar uma disciplina deste género. Concluo que,
manifestamente, nós não temos nesta investigação nenhum interesse que lhe seja
estranho. Tal como consideramos livre aquele que é um fim para si mesmo e que não
existe para outro, assim também esta ciência é a única de todas as ciências que é uma
disciplina liberal, pois só ela é um fim para si mesma.” Aristóteles, Metafísica, Livro
A, Tomo1, Vrin, p. 9.

b) Condição política.
No entanto, não basta libertar-nos da dependência do trabalho para termos tempo
livre para pensar. Prova disso é o facto de um grande número de sociedades antigas
terem sido prósperas sem terem tornado possível o surgimento da filosofia. Faltavalhes
a condição política, que faz, da possibilidade de exercer o espírito de maneira
autónoma, um direito consagrado na relação política. Pois, enquanto for tabu pôr em
dúvida as verdades reveladas, enquanto o exercício livre do espírito é motivo de
prisão ou de morte, a liberdade de pensar é um logro. Pode ser privilégio de alguns
favorecidos pelos deuses, votados à clandestinidade, mas não faz sentido sobrestimar
as capacidades de um espírito solitário. Não conseguimos pensar sozinhos. É a troca,
a circulação das ideias, a sua discussão que permitem que cada um faça um uso
fecundo da razão. A filosofia implica uma sociedade, na qual os sábios e os
pensadores possam fazer um uso público da razão. Implica que os significados e os
valores sejam discutidos num amplo debate público. Quando os espíritos esclarecidos
são condenados ao silêncio, quando um pensamento único, que se apresenta sem
alternativa, se protege de todas as críticas pela intimidação, pelo terror, ou pela
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O que é a Filosofia
redução dos homens à pobreza, os espíritos não têm condições para se libertar do
obscurantismo em que estão encerrados. A Luzes e o seu progresso são uma tarefa
coletiva, muito mais do que um assunto pessoal ou privado.
Por outras palavras, ou nos libertamos coletivamente das superstições, ou então
mantemo-nos numa situação de menoridade intelectual e moral, imputável às
estratégias de domínio daqueles que pretendem salvaguardar o seu poder e, por
conseguinte, a covardia e a preguiça da maioria.
Não surpreende, portanto, que a sociedade que inventou a filosofia tenha sido
também aquela que inventou a democracia. Com esta invenção, a humanidade
reapropria-se do poder que tinha sido, até então, atribuído aos deuses, isto é o poder
de instituir o seu mundo. Os homens reivindicam o direito de decidir as regras da sua
vida coletiva, o direito a discutir a lei, a ser o autor da sua história. Esta reapropriação
do poder político marca a entrada das sociedades no regime da historicidade. Com
efeito, enquanto a fonte de sentido e da lei foi a instância divina, os homens não
tinham a liberdade de ser os autores da sua aventura. São heterónomos. Recebem a
sua lei do alto ou de qualquer outro lado. O invisível reina sobre o visível, o sagrado
governa o profano. O homem arcaico vive a sua história anulando-se. Todos os seus
actos são ritos de comemoração, de participação, de repetição do passado fundador.
Como diz Marcel Gauchet, “A religião é o enigma da nossa entrada em marcha-atrás
na história”
Neste sentido, o surgimento da filosofia traça uma fronteira entre o que se pode
chamar, como faz Jan Patocka, a “condição pré-histórica” da humanidade e a sua
“condição histórica”, que foi iniciada pelos Gregos. A atividade pensante implica,
portanto, uma situação de crise: crise do sentido, destruição do sentido recebido e dos
parâmetros tradicionais.Quer isto dizer que a filosofia se realiza como anarquia
intelectual e política, como triunfo dos arbítrios individuais, como niilismo e como
reivindicação de uma autonomia anómica? Claro que não. É que para compreender o
nascimento da filosofia temos de compreender também que as condições materiais e
políticas não são suficientes para explicar a intencionalidade filosófica. São ainda
indispensáveis condições intelectuais e morais.
c) Condição intelectual e moral.
As condições intelectual e moral são tão difíceis de explicitar como de pôr em
prática, uma vez que, garantidas as duas primeiras (económica e política), as
condições intelectual e moral dependem da iniciativa pessoal. Ora, nada é mais raro
nos homens do que um autêntico espírito filosófico, raro e perigoso como mostra o
destino de Sócrates. Em 399 a.C., Atenas condena o filósofo a beber a cicuta, e, como
todos sabemos, o governo ateniense não é nem uma tirania, nem um totalitarismo;
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O que é a Filosofia
pelo contrário, é uma democracia. Não será esta a prova de que, sendo a liberdade
política necessária para pensar livremente, ela não é suficiente? Outros poderes
alienantes entram em jogo em sociedades democráticas. Para além desses poderes,
outros ainda mais temíveis, por serem internos ao pensamento, têm de ser
ultrapassados.
Com efeito, espontaneamente, muitos acreditam que ser livre de pensar consiste em
pensar o que se quer. Confundimos facilmente a liberdade do pensamento com a
liberdade de opinião. Ora, opinar não é pensar. Todos os homens têm opiniões, mas
poucos são aqueles que pensam. Este é um paradoxo que surpreende muito mais
gente do que aquela que pode sentar-se comodamente num autocarro. Quanto mais os
homens sentem prazer em ouvir dizer que são livres de pensar, mais lhes é penoso ter
de se libertar daquilo que torna essa liberdade ilusória. Acreditam ingenuamente que
a liberdade do espírito é um dado, quando na verdade só pode ser uma conquista. Os
alunos do ensino secundário são, muitas vezes, testemunhas vivas disto mesmo.
Esperam da filosofia sobretudo satisfações narcísicas. Terão, se tudo correr bem,
oportunidade disso, mas, durante algum tempo, interpretam o criticismo filosófico
como uma oportunidade para fazer valer as suas opiniões.
O acto de pensar obedece a certas exigências. E quais são essas exigências? É o que
temos de ver agora para aprofundar a conversão intelectual e moral que a atividade
pensante implica. A atividade pensante não se desenvolve como se fosse um
movimento natural. Na verdade, pensar é parar. A atividade pensante também não é
expansão e exteriorização existencial, mas retorno sobre si e desenvolvimento das
potencialidades da interioridade espiritual. O acto através do qual o pensamento
reclama a sua liberdade é, assim, inseparável de uma certa atitude mental que define
o que é próprio do acordar filosófico.

3) As características do espírito filosófico.
a) A capacidade de se espantar ou de se maravilhar.
Um sujeito pensante é um ser que renova uma virtude da infância que consiste em
lançar um olhar surpreendido sobre o mundo. Porque é que existe alguma coisa e não
nada? Porque é que as coisas são como são e não de outro modo? A surpresa, o
espanto, a curiosidade ou desequilíbrio (como dirá Piaget mais tarde) são o oposto da
inércia intelectual. Esta inércia faz triunfar sobre as questões o conforto das respostas
recebidas. A criança é alguém que interroga com a vivacidade de um espírito curioso
e, ao mesmo tempo, aquele que confia na autoridade que lhe dá uma resposta. É
crédulo, e esta credulidade cedo o põe a dormir e o torna uma presa fácil de todos os
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O que é a Filosofia
endoutrinamento ideológicos. O despertar intelectual tem de singular o facto de
reencontrar a disponibilidade da infância para o questionamento, rompendo
simultaneamente com a ingenuidade e a passividade. As respostas comuns, vulgares,
já não são aquilo que encerram, mas, pelo contrário, aquilo que suscitam. Sobretudo
quando tomamos consciência da sua multiplicidade e da sua diversidade. Não será
impressionante que as respostas dos homens a questões idênticas sejam tão
diferentes? Como é possível não nos sentirmos interpelados pela heterogeneidade e
pelas contradições das representações humanas?
O filósofo Epicteto dizia, neste sentido, que o que dá início ao esforço de pensar é
menos o enigma do mundo do que as contradições das opiniões humanas que
pretendem resolver esse enigma. “Este é o início da filosofia. Todas as opiniões estão
certas? Como poderiam elas estar certas se são contraditórias? - Portanto nem todas
são certas, mas sê-lo-ão, pelo menos as nossas? E porque não as dos Sírios ou as dos
Egípcios? Porquê as minhas, mais do que as deste ou daquele?”
Espantar-se é o mesmo que romper com o que é familiar, por outras palavras, é ter a
experiência de que o que, até então, era evidente, deixou de o ser. Os grandes autores
não escondem que há nesta tomada de consciência uma vivência desestabilizadora,
angustiante. É grande a tentação para abandonar a tarefa iniciada. Reencontrar a
tranquilidade do significado recebido, mais do que comprometer-se na aventura da
busca da verdade. Esta requer coragem e que nos aventuremos a deixar de nos
alienarmos nos conteúdos de pensamento que estabelecem a nossa heteronomia, para
examinar só com os nossos recursos o que é que eles têm que justifique a sua
pretensão a ser verdadeiros. Será por preguiça ou por covardia, como diz Kant, que a
maior parte dos homens não assume esta responsabilidade do espírito? Renunciam a
servir-se do seu entendimento e parece que se satisfazem com a sua menoridade
intelectual. Que esta satisfação exista num contexto social em que a pluralidade de
opiniões não é um direito de cidadania, ainda podemos compreender. Mas o que nos
pode deixar perplexos é que a necessidade de distinguir o verdadeiro do falso não se
imponha imperativamente em sociedades onde se exprimem as opiniões mais
diversas e mais contraditórias. Como é possível que os homens se acomodem tão bem
à contradição das respostas dadas a uma mesma questão? Há aqui um duplo
escândalo para o espírito:
• Em primeiro lugar, o escândalo do conflito de opiniões. Impossível ficarmos
indiferentes a ele, se nos respeitarmos a nós mesmos, e se a preocupação com a
verdade for uma exigência essencial da razão humana. Duas proposições
contraditórias não podem ser simultaneamente verdadeiras. A necessidade de
de as submeter a um exame racional é um imperativo para quem queira
alcançar a verdade. Porque será que tão poucos homens se sentem na obrigação
de proceder a este exame? Isso significa que a maioria dos homens renunciou a
pretender a verdade? Pois, se pode haver verdade alguma, ela não pode variar
de indivíduo para indivíduo, de uma época para outra, de um grupo para outro.
Onde haja várias verdades, a coerência exige que não se acredite em nenhuma,
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O que é a Filosofia
que nenhuma seja verdade. Então a indiferença da maior parte dos homens
perante o conflito de opiniões testemunha que já fizeram o luto da verdade, que
a verdade já está morta? De modo nenhum, e este é o segundo escândalo.
• O segundo escândalo é o que corresponde à inconsequência humana em
reivindicar a verdade para enunciados que não tenham legitimidade a uma tal
pretensão. Pois como posso saber se o que digo é verdadeiro, enquanto não me
der ao trabalho de verificar se tenho razão em acreditar nisso? Ora, é a este tipo
de crenças que os Gregos chamaram doxa, palavra que podemos traduzir por
opinião. É opinião toda a afirmação que não tenha sido submetida a um exame
crítico. É recebida como verdadeira sem que nos preocupemos seriamente com
saber se esse enunciado é verdadeiro ou falso. Todas as nossas primeiras ideias
são, neste sentido, opiniões, isto é, preconceitos, ideias feitas. Acreditamos
que são verdadeiras, mas não sabemos se existem razões para acreditar nelas.
Não podemos, portanto, submetê-las a sólidas razões teóricas, embora nem por
isso deixem de ser certas para quem as enuncia. Estranho paradoxo: quanto
menos uma ideia é questionada no seu valor de verdade, mais ela se reveste do
prestígio de ser verdadeira, para o seu adepto. A opinião é dogmática por
natureza. Ora, o pior inimigo do espírito não é o erro, mas o dogma.
Reencontrar a faculdade de nos admirarmos é, portanto, o mesmo que despertar de
uma espécie de sono dogmático, e tornar-se disponível para uma verdadeira pesquisa
da verdade. Foi a esta tarefa que se dedicou Sócrates na relação que manteve com os
seus concidadãos. Através da prática da ironia (fingimento de ingenuidade), esforçase
por desestabilizar os seus interlocutores, por lhes devolver a liberdade que
perderam. Estão de tal modo convencidos de estar na posse das respostas às questões
colocadas por Sócrates, que nem se dão ao trabalho de refletir sobre elas. São
prisioneiros de um falso saber, que a interrogação socrática faz estalar, confrontandoos
com as suas contradições. Ao proceder deste modo, tomam consciência da sua
ignorância e podem dar início à conversão intelectual e moral de que se falou mais
acima. De facto, quando nos espantamos de novo, e, em primeiro lugar, com a nossa
própria inconsequência transformamos radicalmente a nossa relação com a verdade e
com os outros. Deixamos de nos colocar numa estratégia de poder, onde o desafio é
impor aos outros uma verdade de que pensamos ser os titulares.
b) Espírito de dúvida.
Duvidar consiste em deixar de estar submetido ao poder de uma certeza. A certeza é
uma servidão interior, pois corresponde a um estado de espírito que adere a um
conteúdo de pensamento que acredita (ou sabe) que é verdadeiro. Um espírito
absolutamente certo de alguma coisa está privado de toda a possibilidade de recuo
para examinar o valor do enunciado que o domina tanto quanto o espírito julga
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O que é a Filosofia
dominá-lo. Nada é pior do que a adesão massiva, sem reservas, sem dúvidas. Deixa
de haver jogo entre o pensamento e o seu conteúdo. Deixa de haver liberdade. Esta
relação com as ideias é própria do fanatismo, do sectarismo típico dos compromissos
ideológicos. Não podemos discutir com certos espíritos. Ou os confortamos nas suas
convicções, ou os ignoramos, ou batemo-nos para impedir a imposição social do seu
ponto de vista. A violência inerente à convicção destrói as condições de possibilidade
de um verdadeiro diálogo entre os homens, de tal forma que a capacidade para se
libertar dos seus malefícios é a primeira vitória do espírito sobre si mesmo. “Só os
tolos e as ostras aderem”, dizia Valéry para pôr em evidência a amplitude da
alienação consubstancial a esta maneira de nos relacionarmos com os significados e
com os valores. Esta é a razão pela qual o acto fundador da filosofia é, para
Descartes, a prática metódica da dúvida.
“Há já algum tempo, escreve Descartes, que me apercebi de que, desde os meus
primeiros anos de vida, tinha recebido numerosas opiniões falsas, e de que aquilo que
fundei desde então baseado em princípios tão mal fundamentados, só podia ser muito
duvidoso e incerto; de forma que faltava dedicar-me, por uma vez na vida, a desfazerme
de todas as opiniões que tinha recebido na minha educação, e a começar tudo de
novo desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas
ciências”.
Quer se trate de Sócrates com a ironia, de Descartes com a dúvida ou de Kant com
o projeto crítico, a exigência do pensamento atualiza-se sempre como uma atividade
de libertação daquilo que procede de uma autoridade diferente do espírito, para
fundamentar de novo o que pode ser considerado verdadeiro. Isto não significa que o
varrimento do pensamento seja uma destruição por princípio, como se nas crenças
humanas nada pudesse ser justificado por argumentos racionais. A dúvida não tem
preconceitos sobre a verdade ou sobre o erro do que é posto em dúvida. Pode
acontecer que, no termo do exame, a verdade do enunciado resista, mas então basearse-
á em razões diferentes das que sustentam a opinião. Normalmente, o que faz a
força da opinião é o hábito, o prestígio do número (somos de modo a que nos
pareçam verdadeiras as opiniões partilhadas pela maioria) e o prestígio da autoridade.
Ora, não é porque sempre se pensou algo que isso é verdadeiro, não é porque um erro
é partilhado pelo maior número de pessoas que ele se transforma em verdade, não é
por Aristóteles ter dito que isso é verdadeiro. Será ainda necessário garantir essa
verdade, através de um exame racional no termo do qual a verdade será teoricamente
estabelecida ou a falsidade desmascarada. Daqui decorre que uma verdade
teoricamente fundamentada é bem diferente de uma verdadeira opinião. Esta é uma
distinção subtil que estabelece que o que faz o carácter opinativo de uma afirmação
não é o conteúdo, que pode ter valor de verdade, é a relação que aquele que a formula
mantém com ela. É incapaz de a fundamentar racionalmente.
O espanto, a dúvida não são fins em si. São disposições intelectuais necessárias
para nos comprometermos no caminho do conhecimento, isto é para conduzir um
verdadeiro exame.
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O que é a Filosofia
c) Espírito de exame : reflexividade.
“Exame”é uma palavra já muito frequentemente utilizada. Mas não basta dizer a
palavra para que seja claro o que ela quer dizer. Como fazer para conduzir um exame
digno desse nome?
Examinar exige que procedamos a uma operação de reflexão no sentido óptico do
termo. Tal como o raio de luz é reenviado numa outra direção ao encontrar um
obstáculo, assim também refletir, para o pensamento, é fazer um retorno sobre si
mesmo, afim de se tomar a si mesmo como objeto e de se fundamentar através do
domínio das suas operações. Este é o desafio do esforço reflexivo. Restaurar o
espírito no papel que deveria ser o seu: o de estar no fundamento dos seus actos, de
ser o seu autor e o seu juiz. “Começar tudo de novo desde os fundamentos, se quiser
estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”, diz Descartes.
Por exemplo, sempre que falamos fazemos surgir algum sentido, mas a razão, em
nós, pode consentir esse sentido? É sensato ou absurdo, justificável ou não? Só a
reflexão faz aceder à inteligência aquilo que dizemos verdadeiramente. O mesmo se
passa com os valores. Sempre que falamos fazemos uso de noções que supõem
valorizações. Bem/mal, belo/feio, justo/injusto, útil/inútil, etc a fala comum está
saturada com estas distinções, mas qual é o valor dos valores que enunciamos? A
razão pode fazê-los seus?
Confirma-se aqui o que já foi dito: o pensamento filosófico não é um pensamento
de primeiro grau. O pensamento de primeiro grau é uma ausência de pensamento ou
um impensado que mantém uma relação imaginária consigo mesmo. Nós acreditamos
ser os autores, os sujeitos autónomos dos nossos discursos. A reflexão faz-nos tomar
consciência do que é uma ilusão. Desde que estejamos atentos aos actos do espírito
para interrogar o seu fundamento e a sua legitimidade, descobrimos que o sujeito do
discurso não refletido está longe de ser o sujeito racional.
Porquê? Porque não está imediatamente na posse de si mesmo. Embora a razão seja
uma faculdade natural, ela precisa de aprender para se desenvolver. Não foi por acaso
que Platão mandou inscrever no frontão da Academia: “Ninguém que não seja
geómetra entra aqui”. É significativo que, com esta frase, se queira dizer que não se
rompe com a opinião por um truque de varinha mágica. Se entendermos por sujeito
racional, o sujeito que respeita, no exercício do espírito, os princípios da razão ,
convém submetermo-nos primeiro à dura escola das matemáticas, para termos a
experiência de que não podemos dizer o que nos apetece, que a razão tem a sua
necessidade e que só aquele que se conforme a ela conduz com retidão o seu
raciocínio. As matemáticas são uma disciplina onde aprendemos a não fazer batota
com a razão. Incitam-nos a desconfiar da imaginação, das impressões sensíveis, e
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O que é a Filosofia
sobretudo revelam-nos a dimensão universal da razão. O teorema de Pitágoras não
depende do arbítrio do seu inventor, nem de contingências históricas ou culturais.
Tem uma necessidade e uma universalidade que é a da razão, faculdade comum a
todos os homens desde que se conformem às suas exigências. O mesmo é dizer que
não podemos esperar dos homens uma verdadeira reflexão filosófica na ausência de
uma formação intelectual muito rigorosa. Na apresentação que Platão faz do caminho
do conhecimento, na imagem da linha (República, 510 a), a esfera da inteligibilidade
está dividida em duas partes: a primeira é o conhecimento dianoético (matemáticas e
aquilo a que hoje chamamos ciências); a dialética ou filosofia só surge depois, em
segundo lugar. Platão achava que só nos podemos dedicar à filosofia na idade adulta
e solidamente armados no plano intelectual e moral. Na ausência destes prérequisitos,
o exame filosófico corre o risco de não passar de um jogo estéril para
adolescentes prontos para degradar a crítica filosófica em crítica pela crítica, cujo
desafio já não é a pesquisa da verdade, mas a afirmação de si mesmo. Devemos, diz
ele, “dar aos adolescentes e às crianças uma educação e uma cultura apropriadas à sua
juventude; cuidar bem do seu corpo no momento em que está em crescimento e em
formação, afim de o preparar para servir a filosofia, e, depois, quando alcança a idade
adulta, reforçar os exercícios que lhe são próprios” Eduquemo-los então para
assumir as responsabilidades sociais (obrigações políticas e militares) que ainda falta
tempo para se entregarem à filosofia, pois esta supõe não só a formação, mas também
a experiência e sobretudo um espírito libertado de qualquer outra preocupação que
não a da busca da verdade.
A pedagogia de Platão não separa, portanto, a formação intelectual da formação
moral, pois num sentido profundo, que já não nos é familiar, as virtudes intelectuais
são solidárias com a virtude moral. Com efeito, o que impede o espírito de se exercer
segundo a sua necessidade própria, remete para a dominação, em nós, de uma
dimensão do nosso ser disposta a subverter a nossa razão. Esta dimensão é a
dimensão sensível. Antes de sermos um ser de razão, somos um ser sensível. Somos
um corpo no sentido lato e é verdade que este torna impossível uma relação
transparente com a verdade. O real é refratado na parede dos nossos sentidos, da
nossa particularidade empírica com as suas determinações sexuais, sociais, históricas,
ideológicas, religiosas. Temos desejos, paixões ou interesses, e basta observar os
homens para nos apercebermos de que colocam o espírito ao serviço da justificação e
da satisfação desses desejos, paixões e interesses. Raciocinam muito, mas a lógica
que aplicam é uma lógica passional. Não utilizam a sua razão para examinar se as
definições nas quais baseiam os seus discursos seguem o caminho da razão, ou se as
crenças que defendem têm coerência e legitimidade. Utilizam-na para provar uma
verdade colocada no exterior da razão por uma instância heterogénea à sua natureza
(desejo, interesse, posição religiosa, situação de classe, etc.). A razão é portanto
cegada e alienada. Não é livre para um exercício autónomo pois é instrumentalizada.
Esta instrumentalização da razão, ao serviço de fins ou de princípios que revelam o
imenso poder da nossa parte irracional, é verdadeiramente imoral para Platão. Para
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O que é a Filosofia
ele, a razão é o que faz a dignidade do homem e é aquilo que o homem deve honrar
para respeitar a sua própria humanidade. Mas isso passa por um trabalho de si sobre
si que consiste numa ascese: libertar-se interiormente daquilo que nos mantém
prisioneiros, libertar os olhos da alma, da prisão do corpo para retomar as metáforas
de Platão. Platão fala de purificação e de catarse. Esta é uma operação dolorosa para a
qual é necessário que o sujeito tenha boas disposições naturais. Se a natureza não
ajudar um pouco, é inútil pensar que esta tarefa esteja ao alcance dos homens.
Sócrates dedicava-se a ela com a ironia. Confrontando os seus interlocutores com as
suas contradições, desmascarava a verdade da opinião que consiste em confundir o
verdadeiro com o que nos é útil, vantajoso ou conveniente. Punha em evidência que o
império da opinião é o império em cada um de nós daquilo que temos de afastar para
começar a compreender o que quer dizer pensar. Mas o sentido da ironia não se
esgota nesta função crítica. Ela é inseparável da maiêutica, isto é, de uma estratégia
cujo desafio é o de revelar cada um à verdade de si mesmo. Trata-se de descobrir que
somos uma alma, que esta é a única autoridade a respeitar e que dedicada ao domínio
de si mesma, é templo da verdade. Por esta razão, ele comparava a sua arte à da sua
mãe, parteira que ajudava a dar à luz os corpos, enquanto ele ajudava a dar à luz os
espíritos.
Talvez seja inútil chamar a atenção para o facto de encontrarmos aqui a
condição mais difícil de realizar. É ela que traça a fronteira entre um autêntico
espírito filosófico e espíritos intelectualmente muito poderosos, mas estranhos à
intencionalidade filosófica.
Esses espíritos muito poderosos, beneficiando de um grande poder social,
chamavam-se, na época de Sócrates, sofistas. Protágoras, Górgias, Hípias, Prodicus
são grandes representantes do pensamento sofista. Todos são estrangeiros em Atenas,
onde se instalam periodicamente para ensinar, fazendo-se pagar caro pelas suas
lições. Sócrates foi acusado de ser um deles e, no entanto, tal como Platão o apresenta
nos seus Diálogos, Sócrates dramatiza a oposição da filosofia à sofística. Isto levanos
a defender que, historicamente, a filosofia emerge de uma dupla ruptura:
• No século VI a.C., com a escola de Mileto, uma ruptura com o pensamento
mítico.
• No século V a.C., com Sócrates, uma ruptura com o pensamento sofista.
4) Pensamento sofista - pensamento filosófico.
O ensino dos sofistas é difícil de unificar. Jaeger salienta que todos têm um ponto
comum: “todos professavam a aretê (a virtude) política, e todos desejavam inculcá-la,
aumentando as capacidades intelectuais pelo exercício.”
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O que é a Filosofia
Dizemos, esclarece ele ainda “que eles foram os fundadores da ciência da educação.
Criaram, com efeito, a pedagogia e (…) a cultura intelectual, ainda nos dias de hoje,
segue em larga medida as vias que eles traçaram”.
Num certo sentido, os sofistas são os fundadores do humanismo. Isto é muito claro
na narrativa do mito de Prometeu, que Platão põe Protágoras a recitar no diálogo com
o mesmo nome. Protágoras mostra que a natureza do homem é produzir cultura,
graças à sua inteligência técnica e moral. Donde a necessidade de desenvolver as
competências politécnicas, aquilo a que se dedica o sofista Hípias cujo objetivo era
sem dúvida, ao contrário da caricatura que Platão faz dele, ensinar as regras gerais
das artes (arte=saber fazer). Tendo também necessidade de explorar os recursos da
fala, pois a linguagem é o instrumento do pensamento e a fala, o meio através do qual
os homens exercem o poder de uns sobre os outros. Górgias, por exemplo, diz que
que se a arte do seu irmão médico é fazer um diagnóstico e prescrever um tratamento,
a sua arte, a de Górgias, é a de persuadir o doente a escutar os conselhos daquele que
possui a ciência. E na assembleia do povo, se o especialista militar ou jurídico não
tiver eloquência, o demagogo, especialista em oratória, acabará por receber a maioria
dos votos. A educação sofista baseia-se, portanto, no relevo atribuído às técnicas e à
linguagem, os dois atributos da natureza humana.
Platão manifesta uma extrema severidade com a paideia (educação sofista). Acusa,
no Sofista, esses mestres de um novo género, de serem “fazedores de prestígios”. Esta
crítica incide sobre dois pontos essenciais: por um lado, o sofista sabe falar de uma
arte que não possui, e, por outro lado, o logos tem uma vocação diferente daquela que
lhe é atribuída pelos sofistas. Platão reprova-lhes o facto de serem fazedores de
opinião e de não se preocuparem com uma autêntica educação intelectual e moral,
apesar de utilizarem frequentemente o nome de educação para aquilo que propõem.
O diferendo aparece claramente na oposição Protágoras - Sócrates. No entanto,
todos os diálogos platónicos põem em cena a alteridade de duas maneira de conceber
o homem e a sua vocação.
Este é o ponto essencial onde o espírito filosófico se afirma na sua originalidade,
correndo o risco de ser incompreendido pela maioria. Com efeito, hoje, tal como
antes, os homens sentem-se mais próximos de Protágoras do que de Sócrates, e no
conflito que opõe os dois, Protágoras parece ter saído a ganhar ao longo da história.
O que é que ensinava Protágoras de tão típico para a nossa modernidade?
Defendia que “o homem era a medida de todas as coisas”.
Se esta afirmação quisesse dizer que só a autoridade da razão humana poderia
decidir sobre o verdadeiro e o falso, sobre o bem e o mal, sobre o justo e o injusto,
Sócrates não criticaria Protágoras por isso. Só que, quando Sócrates fala da razão,
atribui-lhe um significado muito diferente do de Protágoras. Para o sofista, a razão é
uma faculdade subordinada. É um simples meio de argumentação e de raciocínio ao
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O que é a Filosofia
serviço das paixões e dos interesses de uns e de outros. Para Sócrates, não sendo um
simples instrumento, a razão é uma instância particular, uma faculdade dos princípios
e dos fins, cujas exigências o homem deve respeitar para se colocar à altura da
dignidade que ela lhe confere. “O homem é a alma”, diz Sócrates, para querer dizer
que a razão define uma dimensão de superioridade ontológica irredutível à dimensão
empírica, na qual Protágoras pretende circunscrever a natureza humana.
A alternativa não apresenta qualquer equívoco:
• Para um, o homem é uma simples realidade fenoménica entre todas as outras,
regida pelo conjunto das leis que o determinam, sendo que o exercício da razão
não escapa a esta determinação; para o outro, o homem tem uma especificidade
metafísica e moral, de que a razão é uma prova convincente.
• Num caso, o homem é um simples ser reduzido à sua particularidade empírica,
o sexo, o temperamento, a classe social, a situação histórica; no outro caso, o
homem é dotado da capacidade de transcender estes limites para aceder a um
horizonte de universalidade.
Se a particularidade empírica for inultrapassável, estamos, então, condenados a ver
o mundo através do nosso prisma particular, e, não sendo possível a razão adquirir
qualquer autonomia, teremos de renunciar à ideia de uma verdade universal e eterna.
Haverá tantas maneiras possíveis de nos representarmos as coisas quantos os sujeitos
falantes que contactam com elas, tantos reais quantos os sujeitos que vivem neles.
Cada um teria a sua verdade. O conflito de opiniões seria um destino inevitável.
Protágoras defende, portanto, a opinião subjetivista e relativista em matéria de
verdade. Embora seja permitido dizer tudo, haveria certas ideias que seriam mais
úteis do que outras, face às necessidades ou aos interesses da maioria.
Se fosse assim, a tarefa dos homens não seria a de procurar a verdade, a de se
aplicar a discriminar o verdadeiro do falso; seria a de aprender a tornar socialmente
poderosas as ideias mais úteis, e isto passaria pelo domínio da linguagem. Por
conseguinte, os sofistas ensinam a retórica ou a arte de argumentar para serem
capazes de defender uma ideia com tanta habilidade quanto a sua contrária. No
fundo, ensinam uma arte de falar, dessolidarizada com a preocupação da verdade e do
valor. A isto podemos chamar uma técnica de poder.
Que esta prática sofista do discurso é contrária à prática socrática, isso já o
sabemos. Mas, agora, a questão é a de saber se conseguimos seguir Sócrates
respeitando os seus pressupostos. Pois parece verdade que, entre os homens, as
opiniões são soberanas. Se, por vezes, os homens conseguem superar os seus
diferendos, não é tanto pela virtude do exame racional, mas pela submissão à regra
política da democracia. Esta determina, com efeito, que, quando os membros de um
grupo não se entendem, o conflito é resolvido pelo princípio da maioria. Feliz
instituição esta da maioria que permite superar a violência das discórdias humanas
sem recurso às armas. No entanto, uma maioria é sempre uma força, e não é por
sermos o mais forte que temos necessariamente razão. Neste sentido, a democracia
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O que é a Filosofia
não nos afasta de uma relação de força. Quer se queira quer não, a razão nunca
poderá ajoelhar-se diante do altar da força. Sendo a instância que nos permite
representar o direito, a razão aspira a garantir o seu reino sem recorrer a meios que
lhe sejam externos. Por isso, o filósofo é o homem que chama o outro à razão para
romper com a violência ideológica e política. Sonha com uma cidade em que o
diálogo, conduzido no silêncio das paixões e na ascese dos interesses e dos desejos,
poderia unir os homens num mundo comum. Pensando bem, este mundo comum não
é um fantasma de pesadelo. A matemática certifica sem reservas essa possibilidade,
na medida em que a sua verdade tem uma universalidade que se fundamenta
exclusivamente na sua necessidade racional. Porque é que a razão, sendo o
instrumento de medida comum na matemática, não poderia desempenhar a mesma
função em outros objetos, para além dos números e das figuras? O muito realista
Hobbes reconhecia que, se a verdade matemática fosse, como a questão do justo e do
injusto, presa das paixões e dos interesses humanos, poderíamos apostar que os
homens a discutiriam com uma violência e uma parcialidade comparáveis às de que
fazem prova habitualmente. E tem toda a razão. Se formos realistas, Protágoras e
Hobbes não vêem mal as coisas. A luta de interesses, a violência das oposições, a
instrumentalização ideológica da razão, hoje como antes, são um dado observável.
Isto é absolutamente incontestável, mas não significa que devamos aprovar o facto,
como se o que é devesse ser a medida do que pode ser. Com efeito, nada autoriza a
redução do homem à sua dimensão empírica e a negar que ele tem a possibilidade de
transcender os limites, onde os sofistas se esforçam por o encerrar. Só a má fé poderia
levar-nos a negar que a razão seja em nós um poder de transcendência.
Se não fosse assim, como poderíamos ter redigido e aprovado uma Declaração
universal dos direitos do homem? Não terá sido necessário romper com o cárcere
etnocêntrico, que todos os amantes da determinação étnica da condição humana
consideram inultrapassável de facto e legítima de direito? Foi o poder de
transcendência da razão que permitiu a cada membro de uma cultura libertar-se do
seu enraizamento cultural, iniciar uma relação crítica com os valores e com os
significados particulares do seu grupo, denunciar a sua unilateralidade e promover a
ideia de valores e significados universalizáveis de direito. O racionalismo das Luzes
nasceu em solo europeu, mas não é a expressão da particularidade da cultura
ocidental. É a honra do género humano.
Do mesmo modo, é o poder de transcendência que permite que cada um, por pouco
esforço que faça, tome consciência do seu desejo de se libertar da sua lei, para deixar
de confundir o verdadeiro, de acordo com a norma do espírito, com o que parecer ser
verdadeiro, segundo a norma dos afetos.
É também esse poder da razão que entra em jogo, quando somos capazes de nos
elevar acima da parcialidade dos nossos interesses, para determinar as nossas
reivindicações justas, e para tentar conciliá-los de modo a que o interesse de uns não
seja a desgraça dos outros.
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O que é a Filosofia
Por outras palavras, Sócrates pede-nos que encaremos a razão como, para as
questões do sentido e do valor, o equivalente do instrumento de medida matemática,
para a questão das quantidades. Pede-nos que façamos amizade através do espírito, e
que, por esta via, subvertamos a nossa relação com a verdade e com os outros. Já não
se trata de acreditar que estamos na posse da verdade, mas de a procurarmos em
conjunto, uma vez que a sua pedra de toque não são as pretensões de uns ou de
outros, mas o acordo dos espíritos no uso da razão.
5) A sabedoria filosófica como alternativa à violência.
A missão socrática revela-se, então, uma missão de reconciliação dos homens no
seio de uma comunidade razoável.
Missão utópica, diria um pessimista. A natureza das paixões é bem mais poderosa
no homem do que a sua natureza racional. Pior ainda, há quem diga que a ideia de
uma transcendência possível do espírito é uma ilusão idealista. Não foi preciso
esperar pelos filósofos da desconfiança (Marx, Nietzche, Freud) para instruir o
processo da razão concebida como instância universal e transcendente. Esse já era o
debate levado a cabo pelos sofistas. A crise da razão é tão velha como a emergência
do seu magistério. Dá ideia de que a razão nunca pôde verdadeiramente impor a sua
autoridade e que nunca desestabilizou a autoridade da tradição ou de Deus, a não ser
quando impôs às sociedades a anarquia racionalista, quando as capacidades de
argumentação e de demonstração do espírito foram mobilizadas e as ideias mais
loucas não deixaram de ter defensores talentosos, muito hábeis na arte de lhes
conferir alguma verosimilhança.
Missão difícil, responderia o filósofo, mas não impossível. Com efeito, o que torna
possível um verdadeiro diálogo entre os homens não é diferente daquilo que torna
possível a atividade pensante, isto é: uma formação intelectual rigorosa, mas
sobretudo uma conversão intelectual e moral, que está ao alcance de todos os seres
dotados de espírito. Só duas condições são requeridas:
Por um lado, um sentido do problema, da ambiguidade das coisas e da sua
complexidade.
• Por outro lado, a convicção de que não podemos ter razão sozinhos, de que o
que é fundamentado na razão, também o deve ser em direito por qualquer outro
ser que disponha de razão.
Nos antípodas do homem prisioneiro da opinião, o pensador é, então, o homem que
se distancia de um conteúdo de pensamento, o examina fazendo a si mesmo as
objeções que os outros poderiam fazer-lhe se estivessem presentes. O pensamento
procede, ao contrário da discussão com o outro, por questões e respostas num
percurso, cujo desafio é superar uma dificuldade teórica. Pois se não houvesse
Jorge Barbosa, Setembro 2013
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O que é a Filosofia
problema inicial, se tudo fosse claro para o espírito humano a ponto de todos estarem
de acordo, não havia necessidade de fazer luz sobre ele. O pensamento é, então,
dialógico por essência, porque se defronta com o problemático. Por que razão?
• Platão diz que o pensamento é um diálogo da alma consigo mesma.
• Hannah Arendt, do mesmo modo, acentua esta ligação do pensamento com o
diálogo, sublinhando que para pensar é preciso ser vários em um.
• E Kant lembra que a ética do pensamento implica três máximas diretoras: 1)
Pensar por si mesmo ou máxima do pensamento sem preconceitos, 2) Pensar
colocando-se no lugar dos outros ou máxima do pensamento alargado, 3)
Pensar estando sempre de acordo consigo mesmo ou máxima do
pensamento consequente.
A segunda máxima de Kant é particularmente significativa. A estreiteza de espírito
é típica daquele que não consegue libertar-se das suas palas, porque é incapaz de se
abrir à alteridade. A unilateralidade do seu olhar, a determinação da sua situação
condenam-no a fechar-se numa espécie de mitologia pessoal ou comunitária. Faltalhe
a mais elementar sabedoria, que consiste em assegurar a retidão do seu próprio
entendimento.
Segue-se, então, que o método do pensamento é a dialética ou a arte do diálogo
elevada à dignidade de um processo de reflexão. Uma questão pede respostas que o
exame conduz a problematizar pacientemente até ao ponto em que, separado o trigo
do joio, podemos entender-nos sobre verdades comuns. A verdade é revelação de um
“nós” em lugar de um “tu” e um “eu”.
Os sucessos da reflexividade ou da regressão dialética não devem, todavia, fazernos
esquecer os seus fracassos. Acontece, com efeito, que ela desemboca, por vezes
em aporias, isto é, em impasses teóricos, como podemos ver nos diálogos socráticos
de Platão. Mais fieis às lições do mestre, em vez de alcançarem uma conclusão
positiva, esses diálogos confrontam o espírito com a sua própria impotência. O que
não corresponde a um conhecimento menor ou menos importante do que qualquer
outro, porque, como diz Descartes, se descobrirmos que “o conhecimento procurado
ultrapassa inteiramente o alcance do espírito humano, não nos julgaremos, por isso,
mais ignorantes, pois saber isso não é uma ciência menor do que saber o que quer que
seja”.
Pela dimensão aporética do seu discurso, Sócrates é mais modesto do que o seu
discípulo Platão. Para este, a dialética é o método da ciência, o meio de nos
elevarmos dos conhecimentos sensíveis ou opinativos às Ideias ou inteligíveis puros,
que a alma pode apreender intuitivamente no termo da ascensão dialética.
A experiência aconselha-nos a ter menos pretensões. Se a reflexão nos permite
romper com o dogmatismo da opinião, não é para o substituir pelo dogmatismo
filosófico. Não há um saber absoluto em filosofia. Mas isto não é uma forma de
defender o ceticismo. Neste aspeto, o filósofo é como o cientista. Só que, enquanto o
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cientista duvida de tudo exceto da ciência, o filósofo duvida de tudo exceto das
virtudes do exame para esclarecer o juízo e fundamentar racionalmente as verdades.
Ao dizer verdade racional, não se quer dizer verdade indiscutível. Para isso, seria
necessário que o percurso ou método racional se pudesse fundamentar a si mesmo.
Ora, o percurso filosófico (de resto, tal como o método científico) não consegue fazer
valer-se de semelhante garantia. Um e outro baseiam-se num fundamento irracional
que consiste em fazer da razão a única medida em assuntos de verdade. Mas é
impossível demonstrar a validade deste pressuposto, pois, qualquer que seja a sua
demonstração, ela pressupõe o que é para demonstrar, isto é, que o respeito pelos
princípios lógicos e pelos princípios racionais são necessários para garantir a retidão
do pensamento que os pretenda validar.
Disto é prova a impotência do filósofo racionalista para convencer aquele que
desqualifique a razão nessa pretensão, e considere, por exemplo, que só a submissão
a uma autoridade divina pode ser uma via para a salvação. Neste sentido, a antinomia
das vias abertas por Atenas e por Jerusalém (as religiões de Abraão - judaísmo,
cristianismo e islamismo) é irredutível. A pluralidade humana ainda pressupõe outras
vias, porventura, igualmente irredutíveis. Para elucidar uma questão, vários
princípios podem ser formulados, cada um com a sua legitimidade. Por exemplo,
podemos defender que uma distribuição justa das honras, dos poderes e das riquezas
é uma repartição igualitária, baseando-se este princípio na ideia de que os homens são
iguais em dignidade, quaisquer que sejam os seus talentos ou o seu mérito. Mas
podemos também defender que é injusto tratar igualmente seres desiguais em talento
e em mérito e que, portanto, a cada um deve ser dado aquilo que merece. Será
possível superar o diferendo entre partidários de uma ordem social igualitarista e uma
outra hierarquia?
Racionalmente, não. Estamos aqui em presença de um enigma, em termos
filosóficos, pois não nos é possível demonstrar que um princípio é mais racional do
que outro. Os dois têm a sua legitimidade do ponto de vista da razão.
Mas podemos compreender razoavelmente que esta igual legitimidade fundamenta
a obrigação de respeitar o direito de ambas as reivindicações, esforçando-nos por as
conciliar. O princípio igualitário impõe a atribuição dos mesmos direitos e deveres
básicos a todos os membros do grupo. Todos os cidadãos são iguais em direitos. Um
voto vale um voto, por exemplo, independentemente do mérito de cada um na
apreciação das condições políticas. Todos podem também pretender o respeito pelas
liberdades fundamentais (expressão, pensamento, circulação proteção, etc.). O
princípio hierárquico induz-nos a não nos limitarmos a uma definição abstrata do ser
humano e a ter em conta características concretas de uns e de outros. Em todas as
atividades, alguns são mais eficazes socialmente do que outros que até podem ser
mais talentosos. Seria injusto não proporcionar bens aos talentos e aos méritos,
sobretudo se estes só dependerem da responsabilidade das pessoas, o que pressupõe
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que, socialmente, seja garantida a igualdade de oportunidades para desenvolver e
manifestar o mérito e o talento de cada um.
Poder-se-ia desenvolver o mesmo tipo de raciocínio, a propósito da antinomia do
princípio de liberdade e do princípio de igualdade, ou então a propósito do debate
muito atual a respeito do casamento de homossexuais. Estas antinomias, mais do que
racionalidade, exigem de nós razoabilidade.
Estes exemplos sugerem que os problemas são complexos e que o erro consiste
sempre em nos fecharmos numa posição unilateral. Este é o risco que corre aquele
que se limita a fazer um uso estritamente formal da razão. Este uso estritamente
formal da razão é surdo à ambiguidade das coisas, aos constrangimentos do real, à
pluralidade humana, e, sobretudo e mais grave, à exigência moral. A preocupação em
sermos racionais não deve dispensar-nos de sermos razoáveis.
A sabedoria filosófica exige, então, o senso da proporção e a recusa de todas as
formas de integrismo racional. Implica uma espécie de revelação que é sobretudo a
dedicação a uma tarefa crítica, mais do que a certezas dogmáticas, ainda que
racionalmente fundamentadas.
É neste sentido que podemos concordar com Russell quando afirma que o valor da
filosofia reside na sua própria incerteza. Incerteza, recordemos, sobre os resultados,
não sobre a sua função libertadora da estupidez e da baixeza e ainda menos sobre a
sua capacidade para se desenvolver numa comunidade de seres razoáveis, unidos pela
consciência da sabedoria que lhes falta e pela vontade de, em conjunto, honrar as suas
exigências.
B) A sabedoria como ideal prático.
Se esta parte fosse objeto de um aprofundamento comparável ao da parte anterior,
este texto sobre a natureza da intencionalidade filosófica correria o risco de ser bem
indigesto.
Limitemo-nos, então, a algumas breves considerações.
Já compreendemos que o filósofo é o homem que se sente na obrigação de honrar
as exigências da razão, na medida em que esta é, para ele, o fundamento da dignidade
humana e uma instância universal e transcendente, à altura da qual o filósofo deve
ascender. Ora, viver não é só pensar, conhecer, julgar, é também agir, projetar-se de
um certo modo no mundo, lutar por finalidades que acreditamos poderem trazer-nos
felicidade. Tal como a sabedoria teórica é a virtude do espírito nas suas operações
intelectuais, assim também a sabedoria prática é a virtude do homem na condução da
sua vida.
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Nos dois casos, convém recordar que somos seres dotados de razão e que a razão é
o fundamento das nossas obrigações.
Nas suas exortações aos seus concidadãos, Sócrates não diz coisa diferente desta.
Cuidar da sua alma, eis o que o que deveria ser a grande missão do homem.
Estas palavras de Sócrates não devem ser interpretadas como um convite ao
ascetismo. As necessidades da nossa natureza animal têm a sua legitimidade, o bemestar
material também, mas não devem constituir o horizonte da vida ao ponto de lhes
serem sacrificadas as exigências espirituais e morais e de comprometer os bens
superiores da existência humana que são a liberdade, a felicidade e a moralidade.
As palavras de Sócrates visam incitar cada um a dar ordem ao seu ser e à sua ação,
afim de projetar em si e fora de si a face da natureza humana, naquilo que faz a sua
superioridade ontológica.
Não tendo nascido tão pouco para se conformar à ignorância e à menoridade
intelectual, o homem só tem de obedecer à lei que lhe pode ser dada pela sua razão.
Temos, então, de nos libertar da escravidão da nossa natureza sensível, para
simultaneamente potenciar o exercício do espírito e libertá-lo da cegueira das paixões
e potenciar a sua forma de se constituir em obstáculo à violência e à indignidade.
Assim se compreende que a sabedoria teórica e a sabedoria prática são
interdependentes. Uma não se desenvolve sem a outra. O erro tem sempre origem na
subversão da exigência razoável levada a cabo por uma lei diferente da nossa, quer se
trate dos desejos, das paixões ou dos interesses.
Esta preocupação em dar uma expressão razoável à parte irracional da sua natureza
é típico daquele que ama a sabedoria. É essa a sua tarefa. Para ele, cada ser da
natureza tem uma função que só ele pode cumprir. Os gregos chamam virtuoso
àquele que realiza a sua missão de forma excelente. Assim, tal como a virtude do
olho é ver bem, assim também a virtude do homem é desenvolver a sua faculdade
razoável na sua excelência, sob a forma das virtudes intelectuais e virtudes morais.
Umas e outras virtudes supõem a coragem de preservar, em todas as ocorrências da
vida, os valores do espírito: a verdade no plano teórico, o melhor e o mais justo, no
plano prático. Só a reflexão nos liberta da loucura e torna possível uma vida boa e
feliz:
Boa vida, é o mesmo que dizer vida preocupada em não ter de se envergonhar
consigo mesma. Antes de ser uma relação com os outros, a moral é uma
relação consigo mesmo. Trata-se de viver em boa companhia connosco
próprios, estar de acordo com o nosso juiz interior, aquele que encarna o ponto
de vista do universal e que pergunta sempre: “podes universalizar o princípio
da tua ação?” “podes querer que todos os homens ajam como tu ages?”.
Reconhece-se aqui o imperativo categórico tal como Kant o enuncia. A
experiência comum, de onde decorre este imperativo, é a de um ser que tem
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que viver com a testemunha interior que cada um traz em si. Não interessa a
forma como esta dualidade é teorizada (dualismo do sensível e do inteligível
em Platão e em Descartes, dualismo da natureza e da liberdade, do fenómeno e
do nómeno em Kant). O essencial é compreender que não podemos viver em
paz na contradição interior e no desprezo por nós mesmos. Por isso Hannah
Arendt liga o seguinte preceito socrático: “cometer a injustiça é pior do que a
sofrer, pelo menos eu preferiria sofrê-la a cometê-la”. a uma outra afirmação:
“mais me valia servir-me de uma lira dissonante e mal afinada, dirigir um coro
desregulado, ou estar em desacordo ou em oposição com toda a gente, do que
ser um e contradizer-me” . Se um mundo de celerados é uma ofensa à
humanidade é sobretudo porque nenhum ser razoável quer estar em guerra,
mais consigo próprio do que com os outros, sendo que o importante é que nos
convençamos de que é a paz moral que condiciona a paz social e não o inverso.
Ninguém, com efeito, tem nada a recear do homem que se esforça por ser
sábio, pois, tal como afirma Sócrates, “é da virtude que provêm as riquezas e
tudo o que é vantajoso, para os particulares e para o Estado”.
• Vida Feliz, quer dizer vida preocupada em fazer concordar o seu desejo com o
real. A felicidade de existir exige temperança. Aquele que não sabe gerir o seu
desejo, libertando-o dos delírios da imaginação e da sua tendência a não se
limitar, aquele que não sabe orientar o seu desejo mais no sentido do que o
alegra do no sentido do que o entristece entrega a sua existência às dores da
insatisfação permanente, resgate da desmedida e da falta de lucidez.
É, portanto, correto dizer, e a experiência filosófica é disso testemunha, que a
sabedoria é o método da vida boa e feliz. Mas esta conclusão não deve fazer esquecer
a mensagem da introdução. O filósofo não é o sábio. Não compete aos homens
beneficiar da plenitude e da felicidade dos deuses, somente tender para elas.
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 27 interior e no desprezo por nós mesmos. Por isso Hannah
Arendt liga o seguinte preceito socrático: “cometer a injustiça é pior do que a
sofrer, pelo menos eu preferiria sofrê-la a cometê-la”. a uma outra afirmação:
“mais me valia servir-me de uma lira dissonante e mal afinada, dirigir um coro
desregulado, ou estar em desacordo ou em oposição com toda a gente, do que
ser um e contradizer-me” . Se um mundo de celerados é uma ofensa à
humanidade é sobretudo porque nenhum ser razoável quer estar em guerra,
mais consigo próprio do que com os outros, sendo que o importante é que nos
convençamos de que é a paz moral que condiciona a paz social e não o inverso.
Ninguém, com efeito, tem nada a recear do homem que se esforça por ser
sábio, pois, tal como afirma Sócrates, “é da virtude que provêm as riquezas e
tudo o que é vantajoso, para os particulares e para o Estado”.
• Vida Feliz, quer dizer vida preocupada em fazer concordar o seu desejo com o
real. A felicidade de existir exige temperança. Aquele que não sabe gerir o seu
desejo, libertando-o dos delírios da imaginação e da sua tendência a não se
limitar, aquele que não sabe orientar o seu desejo mais no sentido do que o
alegra do no sentido do que o entristece entrega a sua existência às dores da
insatisfação permanente, resgate da desmedida e da falta de lucidez.
É, portanto, correto dizer, e a experiência filosófica é disso testemunha, que a
sabedoria é o método da vida boa e feliz. Mas esta conclusão não deve fazer esquecer
a mensagem da introdução. O filósofo não é o sábio. Não compete aos homens
beneficiar da plenitude e da felicidade dos deuses, somente tender para elas.
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