quinta-feira, 3 de julho de 2008

TAXAS DE JURO, INJUSTIÇA E SUBSERVIÊNCIA


Não percebo nada de economia. Mas percebo o que dizem ou escrevem os economistas, sobretudo aqueles que não se subordinam à preocupação predominante de arranjar um bom emprego, através de comentários "demagógicos" para as empresas e os governos (que, não sendo povo, reagem com a mesma "carneirice" do povo que pretendem dominar ou representar).
O que dizem esses economistas relativamente ao aumento das taxas de juro determinadas pelo BCE?
Que esse aumento é justificado pela luta contra a inflação.
De onde deriva esse perigo inflacionista?
Das economias dominantes na União Europeia, sobretudo a alemã: acontece que a inflação nessas economias tem vindo a crescer; no entanto, a taxa de empregabilidade mantém-se alta.
Segundo esses economistas, a manutenção de um preço baixo do dinheiro, associado a uma baixa taxa de desemprego, provoca riscos sérios de inflação. Compreende-se, sem dificuldade, o mecanismo. A manutenção, através do acesso ao emprego, de um poder de compra real, ainda que diminuído pelo aumento dos preços, estimula os especuladores e os comerciantes em geral a sentirem-se protegidos e a continuar uma escalada ininterrupta de lucros.
Ora, segundo esses mesmos economistas, Portugal não só tem mantido uma taxa de inflação abaixo da média europeia, como tem uma das taxas mais elevadas de desemprego. Junta, portanto, dois factores que aconselhariam a redução das taxas de juro. Sendo um país pobre e com desemprego elevado, a redução das taxas de juro não teria o mesmo perigo inflacionista que tem, por exemplo, na Alemanha.
Segundo o que tive oportunidade de ler em textos fundamentados desses economistas, Portugal poderia ter uma taxa de juro 2 pontos percentuais abaixo do que se pratica nos restantes países da União Europeia, isto é, 2,25%, em vez de 4,25%.
Fácil compreender.
Também é fácil de compreender por que razão numa zona económica com moeda única não é possível instituir duas taxas de juro diferentes. Facílimo até.
Mas, vejamos agora a questão de um outro prisma. Porque é que a taxa de inflação portuguesa não tem qualquer influência na saúde da economia da União Europeia? Fácil. porque a economia portuguesa é uma gota de água no oceano. Honestamente, poder-se-ia dizer o mesmo do défice orçamental: não tem qualquer influência significativa na economia da União.
O que se passa então é o seguinte:
Se a União Europeia está bem num domínio qualquer (o défice, por exemplo), e Portugal está mal, então Portugal tem de fazer sacrifícios para não atrapalhar. Pode empobrecer mais um bocadinho, que não tem mal. Assim como assim, o povo já está habituado. Se por mero acaso Portugal está menos mal (na inflação) e não tem meios para ficar pior (desemprego), e se os países ricos da Europa estão menos bem e têm recursos para ficarem pior, então Portugal também tem de se solidarizar e empobrecer mais um bocadinho, não vá dar-se o caso de começar a arrebitar cachimbo.
Esta é a lógica do poder desmesurado dos contabilistas.
E é também o nosso fado.

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