quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

PUNIR OS POBRES - O NOVO GOVERNO DA INSEGURANÇA SOCIAL


No dia em que estas linhas são escritas, um exército de trinta milhões de infelizes sofre de fome ou má nutrição crónica nos Estados Unidos, e sete milhões não têm habitação. Ao mesmo tempo, cerca de dois milhões de pessoas apodrecem atrás das grades de prisões americanas, e quatro milhões encontram-se em liberdade condicional ou vigiada. O número de cidadãos americanos privados do direito de voto por via do controlo judiciário é aproximadamente o mesmo. Não será surpreendente detectarmos que a intersecção entre o povo dos pobres e o povo dos reclusos é substancial; cerca de metade dos prisioneiros vivia, no momento da detenção, com menos de 600 dólares por mês.
(...)
A tese central do livro de Wacquant incide sobre a articulação de duas evoluções conjuntas, que podem ser observadas, em dimensões mais reduzidas, também na Europa: "A irresistível ascensão do Estado penal americano responde não ao aumento da criminalidade - que se manteve globalmente constante, antes de inflectir em fim de período - mas às deslocações provocadas pelo descompromissso social e urbano do Estado e pela imposição do trabalho precário como nova norma de cidadania para os Americanos de condição inferior."

O livro mostra, com um enorme luxo de precisões quantitativas, as formas e as condições do descompromisso social do Estado, assim como as formas e as condições da expansão do estado penal.

Loic Wacquant analisa particularmente bem o complexo ideológico, através do qual tais "reformas" se tornaram politicamente possíveis. Em primeiro lugar, a ausência de reacção colectiva, nomeadamente sindical, face às transformações do assalariado fordista e face às vagas de despedimento, deixou campo livre a demagogias diversas que souberam captar a soma das frustrações suscitadas pela precarização generalizada do emprego, e virar as multidões descontentes contra o Estado, concebido como "um sendeiro tão esmagador quanto inútil"(p.77). Em segundo lugar, as representações culturalmente constituídas da liberdade individual tornam-na muitas vezes, aos olhos de muitos cidadãos americanos, sinónimo de autonomia financeira, o que permite, de forma recorrente, que as diversas ansiedades e frustrações se concentrem sobre as categorias de população consideradas como sem mérito (os desempregados e os delinquentes em particular): o pobre é alguém que deve aprender a tomar conta de si.

PARA ACEDER ÀS NOTAS DE LEITURA DE FRANÇOIS ATHENÉ SOBRE O LIVRO DE LOIC WACQUANT, CLICAR NO TÍTULO DESTE ARTIGO.



1 comentário:

Bia Loivos disse...

Estou ansiosa para ler este livro. Comprei há alguns meses "as prisões da miséria", em que Wacquant trata mais especificamente a questão do aprisionamento dos pobres como política de estado para conter a insegurança social. Fundamental a leitura de Loic Wacquant por parte daqueles que estão pensando a criminalidade e a violência no contemporâneo.