segunda-feira, 13 de outubro de 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ministro da Educação - Ignorância e Preconceito

Kant, um filósofo moderno intelectualmente hiper honesto, defende uma teoria que não acredita que conheçamos o mundo tal como ele é. Podemos dizer que os modernos encontram em Kant as bases do construtivismo, coisa que Nuno Crato critica, manifestamente sem saber do que fala. Simplificando, segundo Kant, conhecemos o mundo como que usando uma espécie de lentes, digamos azuis. Todo o mundo nos parece, por isso, azulado; escapa-nos a sua verdadeira cor. O problema é que se retirarmos as lentes para o vermos melhor, veremos nada, porque ou o vemos assim construído pela nossa mente (ou entendimento) ou não o conhecemos. No seguimento desta teoria encontramos a Gestalt teoria e os seus famosos estudos das ilusões da perceção, e outras teorias, por via de regra, de natureza construtivista, como as constantes nos estudos epistemológicos de J. Piaget. Não tenho aqui a intenção de corrigir os disparates ditos a respeito do construtivismo no livro do Eduquês de Nuno Crato. Aquilo é muita ignorância concentrada. O construtivismo é criticável, mas não do modo como o autor o concebe como se fosse uma coisa que depende da vontade do próprio Crato. Tal como as críticas que faz a Rousseau, no mesmo sucedâneo de livro, ignoram a complexidade das suas conceções. Desde que li esse livro num sofá da FNAC que contesto firmemente a alegria infantil de muitos professores e opinadores, cansados certamente, e com razão, de reformas da educação para nada. Nuno Crato, embalado pela infantilidade crítica, guindou-se a ministro da educação. E agora temos que o aturar. E é aqui que está o problema.

Os erros dos concursos de professores não resultam então, a meu ver, exclusivamente de uma ideia errada sobre como devem ser feitos. Resultam muito mais de uma estrutura mental, de umas lentes, que impede que o ministro, os seus colaboradores e os próprios funcionários vejam as coisas como elas são. O que é normal, acho eu. Só que esta cegueira pode e deve ser interpretada. O problema em causa não é meramente ideológico. É anterior à construção da ideologia. Na verdade, Crato e os seus colaboradores gostariam de ver reduzidos, na admissão de novos professores, os direitos adquiridos por professores mais experientes. Estão cansados de aturar professores que percebem mais do sistema do que eles próprios. Alguns até são oportunistas e chegam a secretários de estado, recorrendo a um nível de conhecimento do sistema mais de natureza pessoal, o que não lhes serve de nada para o melhorar, mas é muito útil para aceder ao poder.

Então, a ideia seria a de ordenar com prioridade professores com baixa graduação profissional, portanto, recorrer a uma fórmula um pouco mais favorável para professores mais jovens que não precisariam de ter uma graduação profissional apresentável.

O segundo passo seria o de introduzir este procedimento numa parte do sistema de recrutamento que, gradualmente, haveria, por distração dos docentes, de reconfigurar a sua distribuição pelas escolas. A obsessão da administração da educação revelou-se de tal modo grave, psicótica mesmo, que, nem perante o erro óbvio da fórmula de ordenação, conseguiu detetar, primeiro, o que é que não estava bem e, depois, o que é que era preciso corrigir. Este é o verdadeiro problema. O ministro e a sua administração colocaram umas lentes que ofuscavam a realidade, mas que lhes davam a ilusão de estar a fazer uma reforma subtil.

Ora acontece que uma reforma da autonomia das escola com consequências no recrutamento de professores não pode ser feita desta maneira. Enquanto a autonomia se referir a um conjunto diminuto de escolas, mesmo incluindo as que se situam em TEIPs, não faz qualquer sentido que, para elas sejam recrutados docentes com critérios distintos dos que os colocam nos quadros: a desilusão, a sensação de injustiça e arbitrariedade serão inevitáveis e agravar-se-ão até que um novo ministro, com outras lentes e menos ignorante, corrija o problema.

Depois, e mais importante, a autonomia das escolas implica uma territorialização prévia do sistema educativo, isto é, uma definição rigorosa, democrática e consensual sobre como o sistema se implanta, com autonomias variáveis, no terreno. É no quadro desta territorialização que podem ser definidos diferentes critérios e procedimentos de recrutamente de docentes. Enquanto isso não for feito, os critérios devem ser nacionais e, sendo nacionais, tanto faz que o equipamento de ordenação e colocação esteja em Lisboa, em Bruxelas, em Hong Kong ou em Arruda dos Vinhos.

Um primeiro movimento de reforma da educação é a territorialização do sistema com a definição de direitos e deveres do Estado, das Autarquias, das Famílias, dos Agentes Locais, das Ecolas, dos Alunos, dos Professores e suas organizações.

Os disparates, a que o ministro da educação se está a dedicar empenhadamente, poderiam ser vistos como uma oportunidade (mais uma) para pensar no que é urgente fazer para melhorar o sistema educativo.


domingo, 5 de outubro de 2014

O Tempo

Há tempo em que o tempo caminha devagar. Nós, com pressa, e ele, nada. Imperturbável, pé ante pé, nem olha para a nossa pressa de crescer, de amar. Tanto para viver, tanto para fazer e desfazer, e o tempo, em compasso de caracol, caminha ladeira abaixo, ladeira acima, como se tivesse o tempo todo do mundo. À espera que o tempo passe, desesperamos o primeiro dia de escola, o primeiro dia de ser grande, o primeiro dia de todos os dias, que ainda todos são os primeiros, mas um haverá que será o primeiro dos primeiros. E ele não passa. Esperamo-lo à janela, aos pulos de calções na rua, com ar de intelectual de buço a despontar por cima dos beiços, ou de caroços a rebentar no peito. E nada.
Tempo há em que o tempo corre depressa demais. Nós, com vagar, e ele, nada. Imperturbável, em passo de corrida, nem se dá conta do vagar com que queremos parar os olhos, encostar a testa na montra do mundo, cobiçar a beleza lenta das coisas que respiram e das coisas que respiramos. Parece, agora, que o tempo não tem tempo, e nós, que o temos, não o temos, que ele não se deixa agarrar. Por vezes, os pobres, os miseráveis imploram, os joelhos esfolados de pedir, a língua seca de rezar, os olhos queimados de olhar o nada e o vazio, que o tempo apresse o passo, que o fim do mês tarda e a côdea de boroa não chega. Infelizes, chamam a morte, e não sabem. O tempo, ao som das preces, apura o ouvido e, por negligência e gosto de mordomias, abranda a passada, só para contrariar. Desespero dos infelizes. Caladas as orações, chegado o fim do mês, o tempo recupera o tempo perdido, e corre mais depressa do que antes. Tragédia.
O tempo é um cão. Morde-nos as carnes, e lambe-nos as feridas. Cão sem dono, mete o rabo entre as pernas quando o fitamos de frente, e arranca-nos as canelas quando lhe viramos as costas e nos deslumbramos com a imensidão do mar. Sentados à beira-rio, a colar pensos nas carnes rasgadas e a enxaguar lágrimas ressequidas, procura-nos o tempo para nos lamber os dedos magoados. Disso e da mágoa se alimenta o tempo, esse cão danado e doce.
Por uma hora, uma singular hora, um tempo há em que o tempo se ajusta ao compasso da vida. Os ponteiros e as horas ajustam-se, aconchegam-se, vedam todas as frinchas que entre si podem deixar escapar o calor, o frio, a água e o fogo. E ali mesmo se amam o tempo e a vida, por uma hora, uma singular hora, em todo o tempo e em toda a vida. Amam-se como dois amantes que se amam pela primeira e última vez. Os rios que percorrem os corpos entumescem, galgam as margens, tecem almofadas de água e sol, e recuam e brincam, e saltam do leito e fecundam campos, rios e mares à sua volta, e, quando tudo é água e fogo, explodem em raios e trovões, a uma só voz, acordando os céus e fazendo tremer as profundidades da terra. Os olhos olham-se e, surpresos de se verem a si mesmos, cerram as pálpebras, ofuscados de luz, cegueira e saudade, e esperam que os rios voltem ao seu lugar. 
Assim é  quando o tempo, por um instante, se acerta com a vida, por uma hora, uma singular hora, que é como esse instante se chama. Não tem família, nem nome de família, esse instante. Hora é o seu único nome e dela só podemos dizer como se chama a chama desse instante. Hora é o seu nome.
O respeito impõe que a veneremos como se fosse uma deusa. É a primeira das primeiras e é a única. Foi por ela que a vida caminhou mais depressa do que o tempo, é por ela que a vida não quer ir para a frente e arrasta os pés. O tempo, por uma singular hora apaixonado, continua inexorável, cão, como se tivesse ido às putas, e não pára sequer para recordar. Nada.
Felizes daqueles que estão acordados nessa hora. O tempo para trás e o tempo para a frente, mesmo cão, será sempre doce, até quando, furioso, rasgue as carnes e roa os ossos. Será sempre doce. Da sua saliva de fúria nascerá bálsamo perfumado. Jasmim é o perfume. É bom estar acordado na hora em que o tempo acerta com a vida.
Por mim, sei que estava a dormir na hora de acertar. Um sono pesado, de cansaço e desespero. Dormia para esquecer. Agora nada tenho para lembrar.
(...)
As novidades são como os bebés. Fazem o que fazem os bebés. Por isso, os pais e as mães e os tios e tias, avós, sobrinhos e sobrinhas das novidades têm que passar uma boa porção do seu tempo a mudar-lhes as fraldas. A novidade é mudar as fraldas. Essa azáfama incessante de limpar, de assear para não curtir as peles. Essa é a verdadeira novidade. A outra, a que faz como os bebés, é uma nora de tirar água, velha de milénios. Copo atrás de copo puxa água atrás de água. Pinga que pinga, puxa que puxa, roda que roda. Só é novidade se virmos o que faz a nora, e se lhe  mudarmos as fraldas. São os nossos olhos que fabricam a novidade. As nossas mãos, numa de tirar e pôr trapos, benzem o que os olhos vêem. E assim bendita, a novidade caminha com as fraldas coladas ao rabo.
Já não tenho novidades para te dar. Não me agradeças. Que o mérito não é meu. Ao tempo, sim. Agradece ao tempo, à cegueira do tempo que não deixa ver numa nora mais do que uma nora. Descalça as sandálias, cobre a cabeça, esconde o corpo numa túnica azul, fecha os olhos, os lábios húmidos, a alma compungida e os pés ungidos com óleos sagrados, e balbucia uma oração ao tempo. 
Não digas nada, não vá estragar-se a intenção. Não ouças nada. Não sintas nada. Mexe só os lábios, sinal de respeito. E agradece. Ao tempo. 
Agradece por mim também, que não uso sandálias. Caminho descalço, os pés curtidos. Não há óleo que os benza. E não consigo fechar os olhos, medo de perder a pouca luz que o grande luzeiro, por negligência, deixou em mim. Não o avises, não digas nada. Não roubei. Não criei nem matei para roubar. 

Esta pequena luzinha ficou em mim, a iluminar as nódoas negras deste meu corpo magoado porque quis.

JB. 2001

A Novíssima Ciência da Banalidade (excertos)

 

Banalidade é um conceito de largo espectro. Aplica-se a um vasto conjunto de acções do quotidiano e a sua característica nuclear á a inconsciência. Este Tratado para debutantes, tendo preocupações didácticas, acaba por não responder positivamente a essa exigência central de inconsciência. É este o preço a pagar pela ambição desmedida de transpor para a didáctica um conceito tão complexo como o da banalidade.
Infelizmente, portanto, este Tratado não cumpre os requisitos mínimos da banalidade, embora uma grande quantidade de esforço seja aplicada nesse sentido. A tradução da banalidade para um acto pedagógico conseguirá, na melhor das hipóteses, constituir-se em metabanalidade. Assim me assista o engenho e a arte nesta tarefa, a todos os títulos, generosa, se, por via da sua metabanalidade, não conseguir ser um pouco mais do que isso.

A Morte Gloriosa do Filho de Staline e o Cheiro que lhe Sobreviveu

Autor: BARBOSA, Jorge N
Data: 1995
A SOMBRA DO PESSEGUEIRO
(redondilhas a mote de Milán Kundera e de “estranha leveza do ser”)

Jorge Nunes Barbosa

O filho de Staline considerava-se filho de Deus. Não é que os outros o não fossem, mas ele tinha, a esse respeito, aquela certeza insofismável que resulta de ser filho do homem mais poderoso do Universo conhecido do seu tempo, que, de resto, e para reforço da sua profunda convicção, ordenara, sem pestanejar, o fuzilamento de sua mãe.

Mandou a ironia do destino, ou o cinismo das tropas de Hitler (as numerosas pesquisas realizadas sobre este assunto nunca chegaram a uma verdadeira conclusão), que o filho de Staline, infamemente capturado, fosse encarcerado na, para si, detestável companhia de alguns dos súbditos de elite de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra. 

Entre o glorioso filho de Staline e os elegantíssimos súbditos de Sua Majestade estalou, em pleno auge da 2ª Guerra Mundial, uma guerra particular, motivada pela incapacidade congénita dos ingleses em suportar a ideia fixa do filho de Staline, que entendia que não devia limpar a merda que fazia. Os primeiros argumentavam que, para desinfestar o ambiente, era obrigação de cada um limpar a merda que fizesse. O outro, citando Galileu, ripostava, disparando ao ritmo de metralhadora todas as pragas e injúrias do léxico russo, que a melhor forma de apreciar o valor do homem era avaliando a obra por ele legada aos vindouros. Se a merda, que os ingleses faziam, os envergonhava, que a limpassem; a sua não seria removida do local onde ele a pusesse.

Os ingleses, superiormente educados na já famosa Universidade de Cambridge, ficaram apopléticos ao ouvirem da boca daquele energúmeno, que praguejava à velocidade da luz, uma citação do cientista que criara os princípios da Física Matemática. Pediram tréguas, que lhes foram concedidas em termos profundamente vexatórios: tiveram que aceitar que eles próprios deixariam de limpar a merda que fizessem.

Humilhados e vilmente ofendidos, os digníssimos súbditos de Sua Majestade, em Assembleia Geral secreta, facilitada pela brutal bebedeira que o filho de Staline tomara para celebrar a sua retumbante vitória, decidiram que cada um deveria analisar, com todo o espírito científico ainda disponível, após o vexame sofrido, quais as estratégias e tácticas das regatas, travadas contra os de Oxford, que se aplicariam a esta situação unanimemente reconhecida como absolutamente inadmissível.

Na sequência dessa assembleia, de conclusões vergonhosamente inconsequentes, a revolta nas hostes de Sua Majestade atingiu tais proporções que lhes deu volta aos intestinos. O ambiente da caserna, se já era insuportável, tornou-se agora decididamente pestilento. O próprio filho de Staline, num curtíssimo lampejo de lucidez, no meio da sua estrondosa bebedeira, pensou que talvez fosse ele o único a ter direito de deixar obra feita para a posteridade.

Logo que as cores do mundo passaram de branco invisível para o violeta vínico genuíno, o filho de Staline deslocou-se penosamente à casa do guarda, para que a autoridade legalmente instituída deslindasse, de uma vez por todas, o dilema que originara a sua guerra particular, e que tinha sido agravado pelo estabelecimento de tréguas. Toda a gente sabe, e o filho de Staline também, que quando as tréguas agravam o conflito que dá origem à contenda, estamos perante a ameaça de uma Guerra Mundial. Ora, duas guerras mundiais simultâneas só poderiam anular-se mutuamente por constituirem uma afronta à lógica elementar das coisas. Esta reflexão foi exposta ao SS de serviço que, depois de um longo momento de reflexão, retorquiu do alto das suas botas cardadas:
- Se a guerra acabasse agora, seríamos nós, os alemães, os principais beneficiados. Não vejo motivo para me preocupar com isso. De mais a mais, não estou aqui para tratar de assuntos de merda.

O filho de Staline, que ainda via tudo violeta à sua volta, passou a ver estrelas, também de cor violeta, mas muito mais brilhantes, a bailarem na secretária, na cadeira, nas botas, nas paredes, na fotografia de Hitler, no chão, no tecto e em tudo quanto era sítio.

Em passo de corrida firme, e sem qualquer hesitação, dirigiu-se, a grande velocidade, para os limites do campo. Parou dois segundos frente ao arame farpado electrificado que lhe servia de fronteira e atirou, decidido, contra ele todo o seu corpo. E ali se espalmou, projectando estrelas brancas, azuis, verdes, amarelas, mas sobretudo violetas, por todo o campo.

Para que conste, aqui fica registada a história verdadeira da morte gloriosa do filho de Staline, o único homem que, durante a 2ª Guerra Mundial, morreu por uma causa nobre, quase metafísica. Morreu por uma causa de merda; todos os outros morreram por causa da estupidez.