sexta-feira, 3 de outubro de 2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Justiça e Liberdade

Justiça

Quem orienta as suas opções políticas pelos Direitos Universais do Homem provavelmente não é utilitarista. Se todos os seres humanos são dignos de respeito, independentemente de quem são e de onde vivem, então é errado tratá-los como meros instrumentos da felicidade coletiva. Nos tempos que correm, a enorme falta de cultura que caracteriza muitos dos intervenientes no sistema opinativo dos media e da ação governativa e legislativa, impõe que sejam, não para que mudem de opinião ideológica, mas tão só para que saibam o que dizem, que alguns esclarecimentos sejam dados. Na verdade, poderemos defender os direitos humanos, a pretexto de que o respeito dos mesmos irá, a longo prazo, maximizar a utilidade. No entanto, neste caso, a sua razão para respeitar os direitos não é respeitar a pessoa que os detém, mas sim tornar as coisas melhores para todos ou para a maioria. Uma coisa é condenar a miséria em que vivem algumas pessoas porque reduz a felicidade geral, outra é condenar essa mesma miséria por ser um mal intrínseco, uma injustiça.
Para mim, para quem o debate sobre a moral se transforma em política, quando questiona as leis que devem reger a nossa vida, a reflexão moral necessita de algumns esclarecimentos no tumulto da cidade, nas discussões e incidentes que perturbam a mente pública.
Perguntar se uma sociedade é justa é perguntar de que forma distribui as coisas que prezamos - rendimentos e riquezas, deveres e direitos, poderes e oportunidades, cargos e honras. Uma sociedade justa distribui estas coisas da maneira certa: dá a cada pessoa aquilo que ela merece. O problema começa quando se pergunta o que merecem as pessoas.
Se analisarmos as vantagens e as desvantagens da inflação dos preços, em épocas de carestia, a distribuição de prémios de mérito e as ajudas financeiras, estamos a falar de três formas distintas de abordar a distribuição de bens: bem-estar, liberdade e virtude. Cada um destes ideais indica uma forma de reflexão diferente sobre a justiça.

Maximização do Bem-Estar

Para as sociedades de mercado, como a nossa, o máximo bem-estar é um ponto de partida natural. O atual debate político incide muito sobre a forma de promover a prosperidade, ou melhor, o nosso nível de vida, ou estimular o crescimento económico. Para explorar esta ideia, recorremos ao utilitarismo, a explicação de como e porquê devemos maximizar o bem-estar, ou procurar a maior felicidade para o maior número possível de pessoas. No entanto, é esta mesma crença que fundamenta a atribuição de prémios financeiros elevadíssimos a gestores e administradores de instituições bancárias e de seguros, apesar do seu gigantesco insucesso nos últimos anos, para evitar o seu abandono e crises sistémicas (o sistema seria, pelos vistos, mais poderoso do que o mérito dos indivíduos, o que poderia indicar que não mereceriam nem prémio nem castigo); já, no caso da atualização do salário mínimo, a mesma ideologia política assume que a sua evolução deve depender do sucesso, do aumento da produtividade. A não ser que se faça apelo a alguma força superior, como, em certos momentos, faz Mill, este utilitarismo dificilmente será uma prática moral e política que promova o bem-estar da maioria. Pelo contrário, pelos custos que representa, o bem-estar para todos acaba por ser questionado negativamente pelos próprios utilitaristas…

Justiça e Liberdade

A maioria das teorias que fazem depender a justiça da liberdade coloca a ênfase no respeito pelos direitos individuais, embora não se ponha de acordo em relação aos direitos que são mais importantes. A ideia de que a justiça significa respeitar a liberdade e os direitos individuais (aqui justiça não significa só aquilo que é próprio do sistema jurídico, que intervém sobretudo na retificação da injustiça, o que é, na prática, muito arriscado) é tão familiar na política contemporânea como a teoria utilitária de maximização do bem-estar. Por exemplo, as Constituições democráticas do ocidente estabelecem determinados direitos - liberdade de expressão, liberdade religiosa, etc. - que nem mesmo as maiorias simples podem violar. Com efeito, mesmo para muitos libertários e utilitaristas, a justiça significa respeitar certos direitos humanos. Em momentos mais complicados na gestão das sociedades, os libertários e utilitaristas lutam pela redução dos direitos constantes nessas constituições democráticas. Se a puderem fazer sem sufrágio democrático, fá-lo-ão na crença ingénua de que estão a promover o bem-estar para todos.
Nesta linha de pensamento, em que a justiça começa pela liberdade, as discussões políticas do nosso tempo têm lugar entre duas fações rivais da mesma abordagem: a do laissez faire (liberalismo clássico) e a da equidade (por ex.: de Rawls). A liderança do Laissez Faire associa-se e nem se distingue verdadeiramente dos libertários, que consideram que a justiça consiste em respeitar e defender a todo o custo as escolhas voluntárias feitas por adultos responsáveis. A fação da equidade inclui teóricos com pendor mais igualitário. Basicamente, afirmam que os mercados livres não são justos nem livres. A justiça implica, portanto, que sejam colmatadas as desvantagens sociais e económicas que deem a todos uma possibilidade efetiva de sucesso. São teorias que se fazem depender do uso da razão (como em Kant) ou da realização de um contrato teórico (como em Rawls) entre seres inteligentes e racionais que querem ver desejos particulares conflituosos, mas suscetíveis de se subordinarem a princípios gerais, realizados para seu bem e de todos os outros.

Justiça e Virtude


Na política contemporânea, as teorias sobre a virtude são frequentemente identificadas com os conservadores culturais e com a direita religiosa. A ideia de legislar a moralidade corre o risco de cair na intolerância e na coerção. Curiosamente, esta corrente tem, no ocidente, origem em Sócrates, Platão e até Aristóteles. Luther King, e os abolicionistas em geral, foram buscar as suas visões de justiça aos ideais morais e religiosos. Não é uma corrente de pensamento exclusiva de talibãs e de fundamentalistas de qualquer religião, que pretendem, como acontece com os calvinistas mais convictos, que os Estados se constituam como a salvação, polícias mesmo, dos princípios morais das suas crenças religiosas.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Eclaircie - Victor Hugo

Eclaircie

Les contemplations 

L’Océan resplendit sous sa vaste nuée. 
L’onde, de son combat sans fin exténuée, 
S’assoupit, et, laissant l’écueil se reposer, 
Fait de toute la rive un immense baiser. 
On dirait qu’en tous lieux, en même temps, la vie 
Dissout le mal, le deuil, l’hiver, la nuit, l’envie, 
Et que le mort couché dit au vivant debout : 
Aime ! et qu’une âme obscure, épanouie en tout, 
Avance doucement sa bouche vers nos lèvres. 
L’être, éteignant dans l’ombre et l’extase ses fièvres, 
Ouvrant ses flancs, ses seins, ses yeux, ses coeurs épars, 
Dans ses pores profonds reçoit de toutes parts 
La pénétration de la sève sacrée. 
La grande paix d’en haut vient comme une marée. 
Le brin d’herbe palpite aux fentes du pavé ; 
Et l’âme a chaud. On sent que le nid est couvé. 
L’infini semble plein d’un frisson de feuillée. 
On croit être à cette heure où la terre éveillée 
Entend le bruit que fait l’ouverture du jour, 
Le premier pas du vent, du travail, de l’amour, 
De l’homme, et le verrou de la porte sonore, 
Et le hennissement du blanc cheval aurore. 
Le moineau d’un coup d’aile, ainsi qu’un fol esprit, 
Vient taquiner le flot monstrueux qui sourit ; 
L’air joue avec la mouche et l’écume avec l’aigle ; 
Le grave laboureur fait ses sillons et règle 
La page où s’écrira le poème des blés ; 
Des pêcheurs sont là-bas sous un pampre attablés ; 
L’horizon semble un rêve éblouissant où nage 
L’écaille de la mer, la plume du nuage, 
Car l’Océan est hydre et le nuage oiseau. 
Une lueur, rayon vague, part du berceau 
Qu’une femme balance au seuil d’une chaumière, 
Dore les champs, les fleurs, l’onde et devient lumière 
En touchant un tombeau qui dort près du clocher. 
Le jour plonge au plus noir du gouffre, et va chercher 
L’ombre, et la baise au front sous l’eau sombre et hagarde. 
Tout est doux, calme, heureux, apaisé ; Dieu regarde. 

juillet 1855.

par Victor Hugo

Estado da Saúde nos USA

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Colóquio Internacional - Metamorfoses do Espaço Público, Ética, Política e Educação

<Cartaz_PPS_Out2014_V2.pdf>

A Filosofia em Sofrimento nos Dias de Hoje, tal como Eu e o meu Cão


Nuno Crato, o Ministro da Educação Mais Incompetente dos Últimos 40 Anos

O ministro Cardia foi responsável pela "normalização" da educação após o verão quente. Não foi simpático, foi discutível o que fez, mas não foi delirantemente incompetente. O ministro Couto dos Santos fez asneira vasta, sobretudo no que diz respeito ao sistema de avaliação dos alunos, de que ainda sofremos as consequências nefastas nos dias de hoje. Mas foi ministro por pouco tempo, pelo que não teve oportunidade de mostrar mais incompetência. A ministra Ferreira Leite esqueceu-se de alguns aspetos fundamentais de gestão do quotidiano no Ministério da Educação. Mas teve a sorte de reagir rapidamente após alertas dos serviços que a apoiavam. Nem por isso, deixou de ter uma visão própria da Idade da Pedra sobre o ECD.
Maria de Lurdes Rodrigues, mulher inteligente, fez a burrice de se rodear de uma equipa de secretários de estado, diretores regionais e até de diretores de escola, verdadeiramente medíocres, sem ideias e violentamente conformistas, que lhe diziam que estava tudo bem nas escolas, quando qualquer professor sabia que isso só se podia dizer por quem quisesse agradar à senhora ministra. Mas tinha ideias, algumas erradas e algumas certas.
Nuno Crato, pelo contrário não só não tem ideia nenhuma útil, como tem algumas cientificamente erradas. Escreveu um livro pateta sobre o "eduquês" que animou estupidamente muitos professores, cansados de "reformas" absurdas, e guindou-se a ministro. Felizmente, desde o primeiro dia fui um crítico insolente desse livro pobre, errado e absolutamente dessintonizado de qualquer problema da educação. Critiquei-o, porque não lhe encontrei sequer um pouco de humor, como, nos finais dos anos 70, encontrei num livrinho conservador e reacionário de um autor canadiano, cujo nome me iludiu indecentemente (E. Morin). Não era o Edgar Morin que eu conhecia, mas quando folheei o livro, senti-me tentado a comprá-lo, sem pensar, só para saber que raio de AVC tinha atacado um autor que eu admirava muito. Felizmente era outro, o canadiano.
Pois bem, Nuno Crato não só se revelou uma nulidade em termos de ideias, como se situa abaixo de zero no que concerne a gestão do quotidiano do Ministério da Educação. O seu comportamente não revela só ideias erradas, revela também uma astronómica ignorância. A sua equipa compete com ele no oportunismo e na incompetência.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Salsicha Educativa (artigo "Expresso")

De onde vem a "salsicha educativa" de Passos? A resposta está em Marx

Expressão utilizada pelo primeiro-ministro num discurso a propósito de Educação foi ouvida com surpresa. Fomos à procura da origem do conceito.
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De onde vem a 'salsicha educativa' de Passos? A resposta está em Marx

Esta segunda-feira, ficámos a saber pelo primeiro-ministro que o sistema educativo em 
Portugal é uma fábrica de salsichas - um conceito, à primeira vista, transformador de 
professores em operários e de alunos em enchidos e que surgiu pela pena de Karl Marx, 
numa leitura do escocês Neil Smith, professor universitário que se sentia nesse ambiente, 
onde "alguns de nós são as salsichas, alguns de nós enchem a tripa com a carne, 
alguns de nós só manejam as máquinas e alguns são os gerentes".
O geógrafo e antropólogo não se importava especialmente com a imagem que, no i
nício do século passado, já era usada em relação a algumas escolas inglesas e cuja 
raiz é negativa, sem ofensa para as fábricas de enchidos de carne picada temperada. 
Neil Smith estava mais preocupado com um fenómeno que lhe parecia global e que 
por isso exigia uma solução à altura. A sua inquietação principal era, aliás, quem 
iria governar essa fábrica que tem imensas filiais locais. Mas nunca restringiu a questão 
à simples "salsicha educativa", como o fez Passos Coelho, embora possa ser uma 
maneira de combater a ideia dos estudantes de que a maioria da matéria é 
"chouriço educativo".
Passos versou assim esta segunda-feira, na sessão solene de abertura do ano letivo 
do Conselho Nacional de Educação, em Lisboa: "Sabemos melhor do que ninguém que 
aumentar a chamada salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado 
educativo. Foi assim que, no passado, a generalização de novos graus de ensino não 
corresponderam a um salto qualitativo mais exigente no produto escolar. Temos muitos 
mais alunos a frequentar o ensino básico e secundário, esperamos poder vir a ter 
significativamente mais alunos a frequentar o ensino superior, mas é importante que 
o resultado final corresponda a uma melhoria da qualidade do ensino que é prestado."
Mas quem é que usa esta expressão? Se Passos diz "a chamada salsicha educativa" 
é porque já ouviu alguém falar nela. Numa rápida busca na Net, verifica-se que em 
português a estreia parece pertencer-lhe e que no resto do mundo fala-se na questão 
levantada por Neil Smith, mas apenas na "fábrica de salsichas educativa", embora 
se saiba de antemão que, se numa verdadeira fábrica de salsichas se produzem os 
tais enchidos de carne picada e temperada, numa escola formam-se estudantes. 
Por esta ótica, o aluno é a salsicha. No caso da expressão usada pelo líder do 
governo português, como não soa muito bem dizer "aluno educativo", talvez a salsicha 
seja a própria escola, o que faria do Estado e dos privados proprietários de 
estabelecimentos de ensino fabricantes de salsichas.

A educação é cada vez mais uma mercadoria e as escolas fábricas
"Quem governa a fábrica de salsichas?" é o título do artigo escrito por Neil Smith em 2002, 
dois anos antes da sua morte prematura, publicado na revista Antipode e inspirado 
num parágrafo de "O Capital", de Karl Marx, que, numa tradução livre, dizia: "Um professor 
é um trabalhador produtivo, quando, além de trabalhar a cabeça dos alunos, se esfalfa 
para enriquecer o proprietário da escola. E essa relação não se altera, lá porque o 
capitalista investiu numa fábrica de ensinar em vez de numa fábrica de salsichas".
Os sistemas universitários de Estocolmo a Sidney, de Seul a São Paulo - dizia o professor 
escocês no início deste século -, preocupavam-se, nos anos 1970, em fornecer um 
ensino público. Agora, correm a reinventar-se como "emblemas" de organizações 
empresariais. Trata-se, no seu ponto de vista, de uma corrida global, cujos efeitos 
se começaram a fazer sentir na última década do século XX. Foi o avanço do 
neoliberalismo, da modificação das relações comerciais, que levou ao mercantilismo 
no ensino, à transformação da educação em mercadoria com os olhos postos 
num alvo: o lucro.
A "nova" forma de encarar a escola ganha espaço à medida que a relação entre o capital 
e o Estado se torna mais íntima e o Estado faz uma retirada estratégica de algumas 
das suas "antigas" incumbências sociais, sustentava Neil Smith. O professor escocês 
acreditava que valia a pena lutar pela fábrica de salsichas, uma vez que, se as 
universidades dessem um passo atrás, teriam dificuldade em desempenhar a sua 
missão, em especial na parte de investigação. Todavia, seria preciso que, globalmente, 
se erguessem conjuntos de vozes que pusessem em causa os proprietários, os operários 
e os produtos das filiais.
Passos Coelho, assumindo-se como neoliberalista, parece estar consciente de todo 
este processo: não só aceita completamente o conceito - a utilização da expressão 
no seu discurso surge sem qualquer apreciação ou dúvida -, como está disposto a 
engordá-lo, se assim se pode dizer quando se trata de enriquecer uma salsicha 
educativa. Fica-se a saber quem manda na fábrica, apesar de o ministro desta 
indústria ter demonstrado algumas dificuldades na colocação de "enchedores de tripa".


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/de-onde-vem-a-salsicha-educativa-de-passos-a-resposta-esta-em-marx=f890583#ixzz3EA5zYjYv

sábado, 13 de setembro de 2014

Educação OCDE

Palitos e Mastigações

Esta minha quietude física, forçada, gerou em mim várias inquietudes não forçadas. Uma delas partilho-a aqui com quem queira. Do conteúdo do que dissesse o nosso primeiro já eu me tinha desvinculado há muito, por falta de qualquer substância que lhe pudesse atribuir. A sua "aderência à realidade" é como a daqueles pneus que aderem de tal modo ao piso que o carro não anda. Colam, mais do que aderem. O homem colou-se. Sabe lá o que é aderir e o quanto a "aderência" implica necessariamente alguma "desaderência" para poder funcionar e andar depressa. Veja-se o caso dos WRC. Pois bem, não é isso. É mais uma dúvida. Tendo o homem uma voz tão bem colocada, por que raio de razão não seguiu a carreira de radialista? A esta hora, sempre que fosse a uma praia dos pobrezinhos, seria inundado por fãs a pedir-lhe autógrafos, como uma península por todos os lados menos por um (o da sua mulher que não é fã, nem quer coisas dessas), em vez de por energúmenos que querem a sua demissão. Não sendo o conteúdo, é o quê? Será a sua postura comunicacional geral: gestos, mastigações, etc.
Tendo-me dedicado, não a ouvir o que diz (que não interessa), mas a prestar atenção ao que faz, reparei que o nosso primeiro fala com os portugueses (nem que sejam só 20) como aqueles senhores que atendem os seus servos sempre à hora das refeições. Falam com eles sempre a mastigar qualquer coisa: um naco de boroa, um pedaço de bolo, ou uma tira de toucinho, tanto faz. Deste modo são passadas três mensagens, qual delas a mais importante isso fica ao vosso critério:

  1. Os senhores estão sempre muito ocupados. Trabalham a todas as horas e até à hora de almoço têm de despachar com os seus criados.
  2. Os senhores são atenciosos. Atendem os seus servos mesmo à hora sagrada da refeição.
  3. Os senhores são gente trabalhadora. Logo que o servo tenha dito ao que vinha, ala que se faz tarde, e o senhor precisa de empurrar o naco com uma pinga. Não oferece nada porque é frugal.
Então, o nosso primeiro fala assim, como um senhor que, atenciosamente, atende o seu servo às horas das refeições. Como um colonizador atenderia um seu escravo. Só lhe falta o palito nos dentes, a bailar de um lado para o outro. E um "sombrero".
"Está a almoçar? Desculpe lá. É que a vaca vai dar bezerros mais logo." Voz cava e bem colocada: "Não tem de se preocupar; estou mesmo a acabar. Então os bezerros vão nascer. Folgo muito. Olhe, já agora, pode apanhar um cacho de uvas da ramada do lado esquerdo para levar à sua Ermelinda. Os bagos que caiam ao chão pode levá-los aos seus filhos que bem devem andar precisados de uma guloseima. Não colha do lado direito que foram pulverizados com caga-já.  Quando houver novidades, passe por cá, que já devo estar a cear e, portanto, posso atendê-lo. Vá lá à sua vida. E não se lembre de dizer que vem daqui." que o mesmo é dizer: "não se esqueça de cantar as minhas glórias e a minha generosidade. As uvas, não se esqueça, do lado esquerdo que do lado direito têm caga-já".
É assim que fala o nosso primeiro: sempre a mastigar... e a engolir (não vá alguém pensar que está só a morder os dentes de raiva).

À hora da ceia lá está ele. Não é esta a primeira, nem a última. Lindo quadro pode, então, ser visto. O nosso primeiro ao centro. Decididamente, falta-lhe o palito nos dentes a balouçar. É preciso falar urgentemente com quem cuida da sua imagem. Ao seu lado direito (do lado esquerdo de quem vê) "a do farto regaço". Ao colo da "do farto regaço", embalado, com ar feliz, a chuchar no dedo, o nosso vice-primeiro. Os comensais estão todos dispostos, de forma a que a fotografia apanhe, de todos, a tacha arreganhada. Ninguém quer fazer, desta vez, figura de emplastro (isso, fazem eles a toda a hora em outras ocasiões). No fundo do quadro, conferindo-lhe a beleza em falta, uma fazenda de ar bucólico: cores suaves e doces de uma seara de trigo, emoldurada por ramadas de vinhas viçosas e gulosas. Os servos da gleba trabalham a terra. Magros, famintos. Alguns são piegas. Outros estão a mandar o mastigador à merda. No lado esquerdo da imagem, vê-se uma pequena escaramuça. O Aristides, que tinha ido colher as uvas para a sua Ermelinda, levanta os braços, impedindo que um desnaturado qualquer lhe roube o cacho de uvas. "Foi o senhor que mas deu. Sai daí. Só te posso dizer que as daquele lado estão cheias de caga-já". Um servo que corria para aquele lado estacou de repente. Abriram-se dois buracos na terra debaixo dos seus pés. Logo o palerma que vinha no seu encalço aproveitou para lá depositar umas sementes de girassol. Assim como assim, aquilo era trabalho, empreendedorismo, inovação, etc.

Ao nosso fotógrafo, pede-se-lhe agora que alargue o ângulo da sua objetiva. Assim faz. Vê-se agora claramente, à frente da mesa da ceia, dois leprosos, cada um com a sua trombeta nova em folha e a brilhar, e um cão sarnento. Os leprosos procuram apanhar as migalhas. O seu sonho é saltar para a mesa e comer coisas ainda inteiras e não mastigadas. O cão lazarento está lá para guardar a porta de intrusos e para impedir os leprosos de acreditarem que alguma vez conseguiriam ficar de frente, tacha arreganhada, para o fotógrafo. O cão sarnento lembra: "Fui eu que organizei esta ceia e todas as outras que se seguirão. Não me cansarei de o proclamar aos quatro ventos. Não precisei de andar na escola para aprender a coçar as pulgas. Aquele copinho de leite que ali vês, sentado ao centro, está lá porque fui eu que o lá pus. Fui eu que lhe cocei as pulgas. Se vós, leprosos, quereis ocupar algum daqueles lugares, só tendes que vos portar como eu digo. Já sabeis que fui eu que mandei afinar as vossas trombetas. Estão afinadas. Agora, não as desafineis. O resto, deixai comigo que sei coçar as minhas próprias pulgas e as dos outros, se for preciso. O que me faz falta é aprender a cantar." E recomeçou: "Grândolaa, vila moreena..." "Cala-te lá", disseram os leprosos em uníssono.

Um bater de palmas. O nosso primeiro quer ouvir o bobo. "Venha o do abrunho e que se cale o cão sarnento que não é tenor. Somos amigos, tenho muita consideração por ele, mas a amizade e a consideração também têm limites". E engoliu o que disse, ou então foi uma tira de toucinho frito.

E aqui se reproduz o poema do "do abrunho". O vice-primeiro embalado pela "do farto regaço" já dormia a sonhava sem os recalcamentos da sua vida. E pensava: "será que, se me puser em posição de sacrifício, o ar doloroso, de missionário, ela vai continuar a embalar-me? Não. É melhor não. Já sei o que vai acontecer. Vira-se logo, e, depois, a missionária é ela". Vamos ao poema, aqui reproduzido como pode ser, mas não como certamente merece.

(Som de piano e viola acústica em ritmo binário. uma voz rouca, mas afinada)
Noite escura
Dia claro
Chave na fechadura
Eu truz, truz
Tu traz, traz.

(rufo de bateria. Metais a impor ritmo ternário de valsa. Baixo a confirmar. Voz uma oitava acima, desafinada. Bateria ao jeito dos Maroon Five)

Tu traz, traz
E a noite escura
Eu truz. truz
E o dia claro

Chave, chave
Fechadura na chave
E a lua no alto
E eu cá embaixo

Porta aberta
Porta fechada
Luz no céu
A chave caeu.

(voz rouca, afinada. ritmo binário. Piano)

Noite escura
Dia claro
Chave na fechadura
Eu truz, truz
Tu traz, traz.

Palmas. O vice-primeiro acordou e lembrou-se da lavoura, dos ranchos folclóricos, e dos velhinhos. O nosso primeiro recomeçou a mastigar e a engolir. O cão sarnento uivou. Fez-se silêncio. Um sorriso brilhou-lhe nos lábios. E então pôde ver-se com toda a clareza: o palito do primeiro estava nos dentes do cão. Que falta lhe faz o palito... Mais do que o sombrero. Questão de imagem!