terça-feira, 23 de setembro de 2014

Salsicha Educativa (artigo "Expresso")

De onde vem a "salsicha educativa" de Passos? A resposta está em Marx

Expressão utilizada pelo primeiro-ministro num discurso a propósito de Educação foi ouvida com surpresa. Fomos à procura da origem do conceito.
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De onde vem a 'salsicha educativa' de Passos? A resposta está em Marx

Esta segunda-feira, ficámos a saber pelo primeiro-ministro que o sistema educativo em 
Portugal é uma fábrica de salsichas - um conceito, à primeira vista, transformador de 
professores em operários e de alunos em enchidos e que surgiu pela pena de Karl Marx, 
numa leitura do escocês Neil Smith, professor universitário que se sentia nesse ambiente, 
onde "alguns de nós são as salsichas, alguns de nós enchem a tripa com a carne, 
alguns de nós só manejam as máquinas e alguns são os gerentes".
O geógrafo e antropólogo não se importava especialmente com a imagem que, no i
nício do século passado, já era usada em relação a algumas escolas inglesas e cuja 
raiz é negativa, sem ofensa para as fábricas de enchidos de carne picada temperada. 
Neil Smith estava mais preocupado com um fenómeno que lhe parecia global e que 
por isso exigia uma solução à altura. A sua inquietação principal era, aliás, quem 
iria governar essa fábrica que tem imensas filiais locais. Mas nunca restringiu a questão 
à simples "salsicha educativa", como o fez Passos Coelho, embora possa ser uma 
maneira de combater a ideia dos estudantes de que a maioria da matéria é 
"chouriço educativo".
Passos versou assim esta segunda-feira, na sessão solene de abertura do ano letivo 
do Conselho Nacional de Educação, em Lisboa: "Sabemos melhor do que ninguém que 
aumentar a chamada salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado 
educativo. Foi assim que, no passado, a generalização de novos graus de ensino não 
corresponderam a um salto qualitativo mais exigente no produto escolar. Temos muitos 
mais alunos a frequentar o ensino básico e secundário, esperamos poder vir a ter 
significativamente mais alunos a frequentar o ensino superior, mas é importante que 
o resultado final corresponda a uma melhoria da qualidade do ensino que é prestado."
Mas quem é que usa esta expressão? Se Passos diz "a chamada salsicha educativa" 
é porque já ouviu alguém falar nela. Numa rápida busca na Net, verifica-se que em 
português a estreia parece pertencer-lhe e que no resto do mundo fala-se na questão 
levantada por Neil Smith, mas apenas na "fábrica de salsichas educativa", embora 
se saiba de antemão que, se numa verdadeira fábrica de salsichas se produzem os 
tais enchidos de carne picada e temperada, numa escola formam-se estudantes. 
Por esta ótica, o aluno é a salsicha. No caso da expressão usada pelo líder do 
governo português, como não soa muito bem dizer "aluno educativo", talvez a salsicha 
seja a própria escola, o que faria do Estado e dos privados proprietários de 
estabelecimentos de ensino fabricantes de salsichas.

A educação é cada vez mais uma mercadoria e as escolas fábricas
"Quem governa a fábrica de salsichas?" é o título do artigo escrito por Neil Smith em 2002, 
dois anos antes da sua morte prematura, publicado na revista Antipode e inspirado 
num parágrafo de "O Capital", de Karl Marx, que, numa tradução livre, dizia: "Um professor 
é um trabalhador produtivo, quando, além de trabalhar a cabeça dos alunos, se esfalfa 
para enriquecer o proprietário da escola. E essa relação não se altera, lá porque o 
capitalista investiu numa fábrica de ensinar em vez de numa fábrica de salsichas".
Os sistemas universitários de Estocolmo a Sidney, de Seul a São Paulo - dizia o professor 
escocês no início deste século -, preocupavam-se, nos anos 1970, em fornecer um 
ensino público. Agora, correm a reinventar-se como "emblemas" de organizações 
empresariais. Trata-se, no seu ponto de vista, de uma corrida global, cujos efeitos 
se começaram a fazer sentir na última década do século XX. Foi o avanço do 
neoliberalismo, da modificação das relações comerciais, que levou ao mercantilismo 
no ensino, à transformação da educação em mercadoria com os olhos postos 
num alvo: o lucro.
A "nova" forma de encarar a escola ganha espaço à medida que a relação entre o capital 
e o Estado se torna mais íntima e o Estado faz uma retirada estratégica de algumas 
das suas "antigas" incumbências sociais, sustentava Neil Smith. O professor escocês 
acreditava que valia a pena lutar pela fábrica de salsichas, uma vez que, se as 
universidades dessem um passo atrás, teriam dificuldade em desempenhar a sua 
missão, em especial na parte de investigação. Todavia, seria preciso que, globalmente, 
se erguessem conjuntos de vozes que pusessem em causa os proprietários, os operários 
e os produtos das filiais.
Passos Coelho, assumindo-se como neoliberalista, parece estar consciente de todo 
este processo: não só aceita completamente o conceito - a utilização da expressão 
no seu discurso surge sem qualquer apreciação ou dúvida -, como está disposto a 
engordá-lo, se assim se pode dizer quando se trata de enriquecer uma salsicha 
educativa. Fica-se a saber quem manda na fábrica, apesar de o ministro desta 
indústria ter demonstrado algumas dificuldades na colocação de "enchedores de tripa".


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/de-onde-vem-a-salsicha-educativa-de-passos-a-resposta-esta-em-marx=f890583#ixzz3EA5zYjYv

sábado, 13 de setembro de 2014

Educação OCDE

Palitos e Mastigações

Esta minha quietude física, forçada, gerou em mim várias inquietudes não forçadas. Uma delas partilho-a aqui com quem queira. Do conteúdo do que dissesse o nosso primeiro já eu me tinha desvinculado há muito, por falta de qualquer substância que lhe pudesse atribuir. A sua "aderência à realidade" é como a daqueles pneus que aderem de tal modo ao piso que o carro não anda. Colam, mais do que aderem. O homem colou-se. Sabe lá o que é aderir e o quanto a "aderência" implica necessariamente alguma "desaderência" para poder funcionar e andar depressa. Veja-se o caso dos WRC. Pois bem, não é isso. É mais uma dúvida. Tendo o homem uma voz tão bem colocada, por que raio de razão não seguiu a carreira de radialista? A esta hora, sempre que fosse a uma praia dos pobrezinhos, seria inundado por fãs a pedir-lhe autógrafos, como uma península por todos os lados menos por um (o da sua mulher que não é fã, nem quer coisas dessas), em vez de por energúmenos que querem a sua demissão. Não sendo o conteúdo, é o quê? Será a sua postura comunicacional geral: gestos, mastigações, etc.
Tendo-me dedicado, não a ouvir o que diz (que não interessa), mas a prestar atenção ao que faz, reparei que o nosso primeiro fala com os portugueses (nem que sejam só 20) como aqueles senhores que atendem os seus servos sempre à hora das refeições. Falam com eles sempre a mastigar qualquer coisa: um naco de boroa, um pedaço de bolo, ou uma tira de toucinho, tanto faz. Deste modo são passadas três mensagens, qual delas a mais importante isso fica ao vosso critério:

  1. Os senhores estão sempre muito ocupados. Trabalham a todas as horas e até à hora de almoço têm de despachar com os seus criados.
  2. Os senhores são atenciosos. Atendem os seus servos mesmo à hora sagrada da refeição.
  3. Os senhores são gente trabalhadora. Logo que o servo tenha dito ao que vinha, ala que se faz tarde, e o senhor precisa de empurrar o naco com uma pinga. Não oferece nada porque é frugal.
Então, o nosso primeiro fala assim, como um senhor que, atenciosamente, atende o seu servo às horas das refeições. Como um colonizador atenderia um seu escravo. Só lhe falta o palito nos dentes, a bailar de um lado para o outro. E um "sombrero".
"Está a almoçar? Desculpe lá. É que a vaca vai dar bezerros mais logo." Voz cava e bem colocada: "Não tem de se preocupar; estou mesmo a acabar. Então os bezerros vão nascer. Folgo muito. Olhe, já agora, pode apanhar um cacho de uvas da ramada do lado esquerdo para levar à sua Ermelinda. Os bagos que caiam ao chão pode levá-los aos seus filhos que bem devem andar precisados de uma guloseima. Não colha do lado direito que foram pulverizados com caga-já.  Quando houver novidades, passe por cá, que já devo estar a cear e, portanto, posso atendê-lo. Vá lá à sua vida. E não se lembre de dizer que vem daqui." que o mesmo é dizer: "não se esqueça de cantar as minhas glórias e a minha generosidade. As uvas, não se esqueça, do lado esquerdo que do lado direito têm caga-já".
É assim que fala o nosso primeiro: sempre a mastigar... e a engolir (não vá alguém pensar que está só a morder os dentes de raiva).

À hora da ceia lá está ele. Não é esta a primeira, nem a última. Lindo quadro pode, então, ser visto. O nosso primeiro ao centro. Decididamente, falta-lhe o palito nos dentes a balouçar. É preciso falar urgentemente com quem cuida da sua imagem. Ao seu lado direito (do lado esquerdo de quem vê) "a do farto regaço". Ao colo da "do farto regaço", embalado, com ar feliz, a chuchar no dedo, o nosso vice-primeiro. Os comensais estão todos dispostos, de forma a que a fotografia apanhe, de todos, a tacha arreganhada. Ninguém quer fazer, desta vez, figura de emplastro (isso, fazem eles a toda a hora em outras ocasiões). No fundo do quadro, conferindo-lhe a beleza em falta, uma fazenda de ar bucólico: cores suaves e doces de uma seara de trigo, emoldurada por ramadas de vinhas viçosas e gulosas. Os servos da gleba trabalham a terra. Magros, famintos. Alguns são piegas. Outros estão a mandar o mastigador à merda. No lado esquerdo da imagem, vê-se uma pequena escaramuça. O Aristides, que tinha ido colher as uvas para a sua Ermelinda, levanta os braços, impedindo que um desnaturado qualquer lhe roube o cacho de uvas. "Foi o senhor que mas deu. Sai daí. Só te posso dizer que as daquele lado estão cheias de caga-já". Um servo que corria para aquele lado estacou de repente. Abriram-se dois buracos na terra debaixo dos seus pés. Logo o palerma que vinha no seu encalço aproveitou para lá depositar umas sementes de girassol. Assim como assim, aquilo era trabalho, empreendedorismo, inovação, etc.

Ao nosso fotógrafo, pede-se-lhe agora que alargue o ângulo da sua objetiva. Assim faz. Vê-se agora claramente, à frente da mesa da ceia, dois leprosos, cada um com a sua trombeta nova em folha e a brilhar, e um cão sarnento. Os leprosos procuram apanhar as migalhas. O seu sonho é saltar para a mesa e comer coisas ainda inteiras e não mastigadas. O cão lazarento está lá para guardar a porta de intrusos e para impedir os leprosos de acreditarem que alguma vez conseguiriam ficar de frente, tacha arreganhada, para o fotógrafo. O cão sarnento lembra: "Fui eu que organizei esta ceia e todas as outras que se seguirão. Não me cansarei de o proclamar aos quatro ventos. Não precisei de andar na escola para aprender a coçar as pulgas. Aquele copinho de leite que ali vês, sentado ao centro, está lá porque fui eu que o lá pus. Fui eu que lhe cocei as pulgas. Se vós, leprosos, quereis ocupar algum daqueles lugares, só tendes que vos portar como eu digo. Já sabeis que fui eu que mandei afinar as vossas trombetas. Estão afinadas. Agora, não as desafineis. O resto, deixai comigo que sei coçar as minhas próprias pulgas e as dos outros, se for preciso. O que me faz falta é aprender a cantar." E recomeçou: "Grândolaa, vila moreena..." "Cala-te lá", disseram os leprosos em uníssono.

Um bater de palmas. O nosso primeiro quer ouvir o bobo. "Venha o do abrunho e que se cale o cão sarnento que não é tenor. Somos amigos, tenho muita consideração por ele, mas a amizade e a consideração também têm limites". E engoliu o que disse, ou então foi uma tira de toucinho frito.

E aqui se reproduz o poema do "do abrunho". O vice-primeiro embalado pela "do farto regaço" já dormia a sonhava sem os recalcamentos da sua vida. E pensava: "será que, se me puser em posição de sacrifício, o ar doloroso, de missionário, ela vai continuar a embalar-me? Não. É melhor não. Já sei o que vai acontecer. Vira-se logo, e, depois, a missionária é ela". Vamos ao poema, aqui reproduzido como pode ser, mas não como certamente merece.

(Som de piano e viola acústica em ritmo binário. uma voz rouca, mas afinada)
Noite escura
Dia claro
Chave na fechadura
Eu truz, truz
Tu traz, traz.

(rufo de bateria. Metais a impor ritmo ternário de valsa. Baixo a confirmar. Voz uma oitava acima, desafinada. Bateria ao jeito dos Maroon Five)

Tu traz, traz
E a noite escura
Eu truz. truz
E o dia claro

Chave, chave
Fechadura na chave
E a lua no alto
E eu cá embaixo

Porta aberta
Porta fechada
Luz no céu
A chave caeu.

(voz rouca, afinada. ritmo binário. Piano)

Noite escura
Dia claro
Chave na fechadura
Eu truz, truz
Tu traz, traz.

Palmas. O vice-primeiro acordou e lembrou-se da lavoura, dos ranchos folclóricos, e dos velhinhos. O nosso primeiro recomeçou a mastigar e a engolir. O cão sarnento uivou. Fez-se silêncio. Um sorriso brilhou-lhe nos lábios. E então pôde ver-se com toda a clareza: o palito do primeiro estava nos dentes do cão. Que falta lhe faz o palito... Mais do que o sombrero. Questão de imagem!

Chico o Nosso Homem em Lisboa


Chico notre homme à Lisbonne (version courte) por tapaconnu

pinky and the brain-brainstem

Decadência Alucinada e Alucinante

O exercício do poder e a luta por ele estão a tornar-se (se calhar sempre foram) numa droga alucinogénea.
O governo poupa-se a governar para além das questões do défice e da dívida. Toma umas medidas descoordenadas e sem nexo num plano global de governação nos domínioda educação, da saúde, da segurança social, do poder local, etc. Por outras palavras, não só não faz nada nesses domínios que tenha qualquer utilidade no futuro, como mostra não ter ideias sobre eles. A rede Citius que está a falhar na reforma da justiça não é a única rede que está a falhar. Tal como na Citius, as redes analógicas fundamentais de comunicação entre poder local, educação, saúde, transportes, etc. estão em completa falência. A grande reforma do Estado seria restabelecer e dar funcionalidade a essas redes indispensáveis ao desenvolvimento das sociedades. As digitais podem vir mais tarde ou ao mesmo tempo. Mas com um plano inteligente e global.
A gravidade desta incompetência política é brutalmente amplificada pelos debates daqueles que pretendem exercer o poder. É que mantêm exatamente o mesmo tipo de discurso inútil e compulsivamente esquisóide.
Independentemente de todos os erros (só na Educação são detetáveis uma série deles), e não relevando possíveis situações mais ou menos fraudulentas (houve seguramente muita campanha maldosa também), o governo de Sócrates, em qualquer desses domínios, foi muito mais rico e interessante do que é o atual e são os seus opositores.
Haveria que parar esta decadência alucinada. Com provincianismo, não creio que a coisa se resolva.

O Toxicoindependente

O Chaplin já retirou o nódulo. Foi no hospital veterinário. Agora está aqui, ao meu lado, a procurar o meu colo porque agora é a minha vez de o acalmar. Aquilo deve estar a doer. Está, portanto, a tomar um anti-inflamatório analgésico que o alivia. Ontem, para não me esquecer de lhe dar a dose da noite (de 12 em 12h toma metade de um comprimido), embrulhei uma metade num lenço de papel e pu-la no bolso da camisa. Acordou de imediato, farejou o ambiente e descobriu a droga no bolso da camisa. O pobre não conseguia deixar de gemer para que lhe desse o comprimido. Será isto a toxicoindependência? Só sentir a imperiosa necessidade de um analgésico por o ter farejado? Era a segunda vez que o ia tomar... A toxicodependência seria, então, nesse caso, essa capacidade bípede para inventar futuros, a que os humanos se dedicam desde tempos imemoriais. Talvez...

Un tramway nommé Désir

Maria João Pires

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sócrates segundo Xenofonte


Sócrates


Sabemos através, não de Platão, mas de Xenofonte que Sócrates discutia com os seus dicípulos questões de técnica política do mais variado teor: as diferenças entre diferentes tipos de constituições, a formação de instituições e de leis políticas, os objectivos da actividade de um estadista e a melhor preparação para ela, o valor da união política e o ideal da legalidade como a mais alta virtude do cidadão.
Sabemos, pela mesma fonte, que Sócrates foi um crítico da democracia tal como ela era praticada na Grécia do seu tempo: criticava a mecanização do processo político eleitoral, através do sorteio com favas e do princípio democrático da maioria nas leis da assembleia do povo. Foi também um acérrimo crítico da tirania, nomeadamente a levada a cabo pelo seu antigo discípulo Crítias. Este chegou mesmo a proibir Sócrates de se dedicar ao ensino, sob uma velada ameaça de morte.
Para Sócrates, toda a educação deve ser política. Tem necessariamente de educar o Homem para uma de duas coisas: para governar ou para ser governado.
O Homem educado para governar, segundo ele, tem de aprender a antepor o cumprimento dos deveres mais prementes à satisfação das necessidades físicas. Tem de se sobrepor à fome e à sede. Tem de se acostumar a dormir pouco, a deitar-se tarde e a levantar-se cedo. Nenhum trabalho o deve assustar, por árduo que seja. Não se deve deixar atrair pelo engodo dos sentidos. Tem de se endurecer para o frio e para o calor. A este esforço pedido a quem deseje ser governante chama Socrates ascese.
Mas o ascetismo socrático não é a virtude monacal, mas sim a virtude do homem que deseja governar. Ascese é um conceito que equivale ao noso termo formação, que, para os governantes, deve ser de abstinência e autodomínio. 
Por outro lado, Sócrates faz do problema da liberdade um problema ético. Considera livre o homem que representa a antítese daquele que vive escravo dos seus apetites. Este aspecto só tem interesse relativamente à liberdade política, na medida em que implica a possibilidade de um cidadão livre ou um governante ser, no sentido socrático do termo, escravo. Sócrates não propôs qualquer alteração da realidade social onde o conceito de homem livre se opunha simplesmente ao de escravo.
O autodomínio e a liberdade seriam, então qualidades a desenvolver no cidadão grego e no governante. Mas estas qualidades devem estar ao serviço da virtude política.
Nos primeiros diálogos de Platão, assistimos a debates sempre inconclusivos sobre o que é ser justo, o que é ser corajoso, o que é ser piedoso. Na verdade, se compaginarmos os relatos de Platão com os de Xenofonte, percebemos que, para Sócrates, a virtude do justo, por exemplo, ainda não é virtude, se não estiver assegurado que é honesto, corajoso, etc. A virtude do corajoso ou do honesto ainda não é virtude, se lhe faltar a virtude do justo, etc.
A virtude do Homem é, então, a virtude política: a busca desta virtude é o verdadeiro caminho socrático.
Ninguém deveria ser chamado a governar a Pólis, se não fosse virtuoso. Note-se que o virtuoso de Sócrates não tem nada a ver com o rei filósofo de Platão. É simplesmente aquele que, por ascese, isto é, por formação, se eleva à virtude política, porque é honesto, é justo, é corajoso, etc. e sabe colocar a sua virtude ao serviço da Cidade.

Totalitarismo na Escola - Filme

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Propaganda Terms in the Media and What They Mean - Noam Chomsky

Joan Baez - Diamonds and Rust

Patxi Andion - Manuela (1971-1973)

Cartografia e Imprecisão

Cartografia e Imprecisão

Revolução ou Revolta II

-Para alguns, o poder de dominar o outro encontraria os seus fundamentos, não naquele que domina, mas na obediência do outro, o servo, que, identificando-se com o senhor, teria a ilusão de participar, com esforço mínimo, no exercício do poder. Isto tornaria o poder possível e legítimo, pois aquele que obedece fá-lo-ia de sua livre vontade. Mas numa alienação, isto é, numa submissão à vontade particular de um outro, não encontraremos nunca qualquer tipo de legitimidade pois aquilo que obriga a obedecer não é nunca legítimo se considerarmos que o caráter fundamental do que é legítimo for a obrigação a que se conforma livremente um sujeito que se torna o seu próprio legislador. Da preguiça e da covardia não se deduz nunca a autonomia como nos diz Rousseau.

(Jorge Barbosa, 2014)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Revolução ou Revolta?

- A esperança anima aqueles que adotam o ponto de vista do Estado como princípio e única fonte da ordem. É-lhes possível sonhar com uma revolução que altere a ordem, que endireite o que está torto: esta revolução é uma tarefa acabada de uma vez por todas: amanhãs cantarão. É o otimismo.
 - A esperança não é a característica essencial quando se adota o ponto de vista de um tecido social gangrenado, formado por uma legião de poderes que devoram qualquer esperança de justiça numa sociedade que destrói as liberdades que deveria proteger, destruição levada a cabo por uma multiplicidade de “piolhos” que se tomam por caciques de aldeia ou mandarins da cidade. Só nos restam revoltas pontuais para tentar melhorar este ou aquele aspeto destruindo este ou aquele poder, mas este é um combate contra a Hidra: a tarefa é infinita pois as revoltas não alcançarão nunca a totalidade da legião de poderes, e o esforço da revolta é ele próprio gerador de um novo poder.
(Jorge Barbosa, 2014)

domingo, 7 de setembro de 2014

Conversas de Costas para as Paredes

As conversas de cu para a parede do governo (que não quer ser enfrentado mas também se defende das alternativas) têm, sobretudo a respeito das "reformas", um denominador comum: incompetência política.
Muitos estabelecimentos escolares já foram extintos e outros agrupados, o mesmo aconteceu a muitas autarquias, a estabelecimentos e serviços de saúde, a tribunais e por aí fora.

Afinal qual é o problema?

É que estas alterações, para serem eficazes e sobretudo eficientes, deveriam fazer parte de um plano comum. Não faz sentido reorganizar o parque escolar, sem reorganizar a dimensão e competências das autarquias, por exemplo. O mesmo se diga relativamente aos centros de saúde, tribunais, segurança social, etc.
Ver todos estes assuntos como se não alimentem funções e orgânica em comum é sinal de incompetência política e de amadorismo governativo. Na minha modesta opinião.

Educação na Suécia - O Erro da Ideologia Uniformizadora

Ouço e leio frequentemente opiniões de comentadores que começam por alertar os ouvintes e leitores para o facto de não perceberem do assunto sobre que opinam e até de não estarem a par dele.  Não é esse o meu caso. Nos finais dos anos 60 do século XX, tive acesso, através do consulado da Suécia no Porto (o Sr. Jervell), a publicações de propaganda da política social "revisionista" de Olof Palm (entretanto assassinado) na Suécia.
Mais tarde, já após o 25 de Abril, por um conjunto de coincidências que não vêm agora ao caso, participei em várias ações ligadas ao Acordo Luso Sueco para promoção da educação especial em Portugal.
Mais tarde ainda, tive o privilégio de receber no Porto mais do que uma delegação de professores da Suécia, da Finlândia, da Dinamarca para troca de experiências e conhecimentos. Estas trocas continuaram em diversos formatos que agora também parecem não ser relevantes.
A minha ideia aqui é tão só a de reforçar a minha posição de conhecedor do assunto em muitas das suas dimensões.
Na propaganda de Olof Palm, percebe-se o empenho do governo sueco na organização de um Estado capaz de responder diretamente aos problemas das pessoas (diziam as revistas), ao nível da educação, da saúde,da segurança social, etc. A prioridade eram as pessoas, a "única verdadeira riqueza" da Suécia.
Esta mesma posição era reforçada pelos professores e técnicos que acompanhavam em Portugal o Acordo Luso Sueco.
Já nos encontros de intercâmbio posteriores, os nórdicos (suecos e finlandeses, sobretudo) queixavam-se de alterações no seu modelo social e os suecos, nostalgicamente, reviam heranças da sua história da educação nas escolas que, comigo, visitavam no Porto. Embora estivessem enganados, neste aspeto muito particular porque a herança era norueguesa, até os equipamentos de parqueamento de pranchas de Ski em escolas portuguesas (absolutamente inúteis) os comoviam. Queixavam-se basicamente do início da destruição do seu Estado social.
Agora, podem ler-se notícias que dão conta da insatisfação dos suecos com a privatização de escolas públicas. O rendimento dos alunos reduziu drasticamente.
Do outro lado da barreira, encontrei os holandeses. O seu sistema educativo era suportado por escolas e serviços privados de natureza confessional. Compreendia o embaraço dos meus colegas, sempre apressados em acrescentar que as escolas calvinistas aceitavam alunos católicos. Nas zonas urbanas é assim mesmo, mas nas rurais isso é feito alimentando as rivalidades, que, na Holanda, estiveram muito longe de não serem sangrentas ao longo da História. O calvinismo adotou modalidades fundamentalistas verdadeiramente vergonhosas, mesmo na época em que foi desencadeado, tal como o catolicismo e a Santa Inquisição.
O que é que me parece errado na Suécia? Muito simples: que alguém, em nome de uma moda qualquer, tenha desprezado uma História e uma Cultura que se vinha instalando com sucesso, embora com necessidade (certamente) de reformulações. Do mesmo modo, seria absurdo e completamente errado destruir o sistema educativo holandês, nacionalizando a rede escolar. Pode precisar de reformulações, mas elas não podem, não devem, destruir a cultura e os seus fundamentos. Sem vergonha.
Em Portugal, já seria um grande avanço se os decisores políticos percebessem que a globalização pode conter e deve conter em si mesma as diferenças com origem local e comunitária.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

OS ALUNOS SÃO A INSPIRAÇÃO DOS PROFESSORES.

OS ALUNOS SÃO A INSPIRAÇÃO DOS PROFESSORES.
Leia-se o seguinte excerto de um texto que vou escrevendo sobre "poder e força": "A capacidade de agir encontra o seu pleno exercício no Sujeito autor das suas representações e mestre das suas ações (autónomo). Um tal sujeito torna-se o paradigma do Estado centralizador no qual tudo converge e tudo emana de uma única cabeça, de uma capital. Marx retira daqui o conceito de Estado, princípio centralizado que exerce o poder porque está na sua origem. Não nos encontramos muito distantes da tripartição da alma e do estado em Platão."
Sem conhecer o meu pensamento não expresso no excerto, fica difícil, impossível mesmo, compreender os meus fundamentos para a passagem do sujeito para o Estado, deste para Marx e de Marx para Platão.
O que é que me falta? Alunos. Os alunos são a inspiração dos professores.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Poder e Força

 "- Esta relação da afirmação de si com o poder permite compreender o fascínio exercido pelo indivíduo por todas as formas sociais de poder: os indivíduos, prisioneiros da opinião, confundem o visível com o inteligível e sucumbem à ilusão de aumentar o seu ser (como um gato em pose de ataque) através de um parecer que parece garantido pelo exercício de uma escolha e de uma decisão ligada à sua função: servir-se, em vez de servir e submeter alguém ao seu domínio é acreditar que o poder desregulado permite que alguém se afirme na servidão. É também acreditar que fazemos mandando fazer. Todos estes comportamentos ruinosos para a justiça a para o indivíduo procedem de uma confusão entre o poder e a força, e afogam-se numa desmesura que pretende impor uma ordem, espalhando a desordem da usurpação do poder."
(Jorge Barbosa, 2014)

Direito de Resistência

"Je voudrais dire deux mots sur le droit de résistance, parce que je découvre avec stupeur que personne n'est vraiment profondément conscient du fait que la reconnaissance de ce droit (la civil disobedience en l'occurrence) constitue l'un des éléments les plus anciens et sacrés de la civilisation occidentale. L'idée qu'il existe un droit supérieur au droit positif est aussi vieille que cette civilisation elle-même. Ce conflit entre deux Droits, toute opposition qui dépasse la sphère privée le rencontre. L'ordre établi détient le monopole légal de la force et il a le droit positif, l'obligation même d'user de cette violence pour se défendre. En s'y opposant, on reconnaît et on exerce un droit plus élevé. On témoigne que le devoir de résister est le moteur du développement historique de la liberté, le droit et le devoir de la désobéissance civile étant exercé comme force potentiellement légitime et libératrice. Sans ce droit de résistance, sans l'intervention d'un droit plus élevé contre le droit existant, nous en serions aujourd'hui encore au niveau de la barbarie primitive."
(Conférence : Le problème de la violence dans l'opposition, Juillet 1967, Herbert Marcuse)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Coisa Curiosa

Hoje, aconteceu-me uma coisa curiosa. O meu cartão de cidadão caducou. Decidi renová-lo hoje mesmo, antes que me venha a fazer falta. Acontece que esta não é melhor semana para andar por aí a renovar cartões. Mesmo assim, por comodidade, recorri a uma cadeira de rodas e desloquei-me a um serviço de resgisto predial e de registo civil. De imediato, uma senhora, funcionária do SNS, alertou para a minha prioridade, coisa de que abdiquei porque não havia razão para isso e acho que não se deve abusar. A funcionária que me devia atender alertou para o facto de naquele serviço não haver prioridades para o registo civil, porque aquele era um serviço de registo predial (o registo civil tinha de ser marcado previamente por telefone). Não havia praticamente ninguém à minha frente, pelo que este problema era ocioso, a não ser que a dita senhora (mestre de qualquer coisa, como sentiu necessidade de dizer) se opusesse a essa prioridade. Primeira coisa estranha: um problema inútil, quer pela senhora ciosa das prioridades, quer por mim nas tintas para elas, tendo em conta a sua inutilidade.
Mas a coisa continuou: por comodidade, eu continuei na cadeira de rodas. Na altura de assinar, a funcionária, preocupada com a minha condição, perguntou-me se sabia escrever... Nessa altura, leu o meu nome completo e apercebeu-se de que ela tinha sido auxiliar numa equipa que eu tinha coordenado (dirigido), onde lhe foram dadas todas as condições para estudar e progredir para um serviço de secretariado. A cara dela não me era estranha. Nem me era estranha a ideia de que cadeira de rodas, para muitos, significa limitações muito para além do que o bom senso pode indicar.
O que fez então essa funcionária? Levantou-se, veio cumprimentar-me efusivamente e atrasou ainda mais o seu trabalho. Valha-lhe Deus. É boa pessoa, mas tem de ser um pouco mais sensata.

sábado, 30 de agosto de 2014

Como o cérebro nos engana - uma das formas

Nos anos 70, fiquei surpreendido quando experiências que realizei no Laboratório de Psicologia da Univ de Poitiers, a respeito da memória, mostravam sistematicamente que tínhamos mais confiança em termos aprendido palavras que inventávamos numa lista do que naquelas que tínhamos efetivamente lido na mesma lista.
Truques da Mente - Ep 9 Cérebro Curioso [NatGeo] por DOCUMENTARIOSBM

Antes de tomar banho, convém aprender alguma coisa


What To Know About ALS Before The Ice Bucket... por buzzfeedvideo

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ESPINOSA - Tratado Político - Séc. XVII - Análise Crítica

O estado democrático surge, à partida, como o mais conforme à natureza humana, aquele que não envolve nenhuma réstia de contradição com o direito natural, e por isso Espinosa, neste caso ao arrepio de Hobbes, toma-o como uma espécie de matriz de todo o político. É que em democracia, diz-se um pouco mais adiante, ninguém transfere o seu direito natural para outrem ao ponto de este nunca mais ter de o consultar daí em diante: transfere-o, sim, para a maioria do todo social, de que ele próprio faz parte, e, nessa medida, todos continuam iguais, tal como acontecia anteriormente no estado de natureza.

Por outras palavras, a democracia aproxima-se no plano político da igualdade que se verifica no estado de natureza, onde não existe razão alguma para que alguém esteja na condição de dar ordens e, assim, reduzir a liberdade dos demais. Nessa medida, ela pode também considerar-se como o tipo de estado, ou de império, que melhor contribui para se atingir a finalidade de qualquer república.

Sendo, com efeito, a associação dos indivíduos feita com base numa cedência voluntãria do direito natural, seria impensável e contraditório ela destinar-se a tornar menos sui juris, isto é, menos potente, cada um dos associados. Um império será tanto menos racional e, por conseguinte, tanto mais contrário à natureza do homem quanto mais reduzir
a sua capacidade de expressão e de ação. Como diz
Espinosa, o fim último da república (72. TlP, XVI, G 111, 193, trad., cit, p. 330. 73. TlP, XVI, G I1I, 195, trad., cit., p. 332. LVIIl. Baruch de Esptnosa) não é dominar nem conter os homens pelo medo e submetê-los a um direito alheio; é, pelo contrário, libertar o indivíduo do medo, a fim de que ele preserve o melhor possível, sem prejuízo para si ou para os outros, o seu direito natural a existir e a agir. (. .. ) O verdadeiro fim da república é, de facto, a liberdade."


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ESPINOSA - Cronologia

"1632. Nasce em Amsterdão, em 24 de novembro, Baruch (ou Bento, ou Benedictus) de Espinosa, de uma família, de origem ibérica, de prósperos comerciantes, cristãos novos reconvertidos ao judaísmo quando se refugiaram na Holanda, país calvinista ortodoxo e uma das únicas repúblicas europeias. Nessa época a Holanda vivia o seu "século de ouro", tornava-se uma nação rica e poderosa, desenvolvendo-se económica, política e culturalmente; por isso foi também marcada por um período de conflitos externos (lutas com outros países pela hegemonia marítima e invasão às colónias espanholas) e internos (luta pelo poder entre o partido orangista, calvinista ortodoxo, e o partido republicano, calvinista liberal).

1639-50. Estuda na escola judaica de Amsterdão, onde, de início, é educado de acordo com uma linha mais liberal e humanista do judaísmo e, mais tarde, segundo o judaísmo ortodoxo. Nesses anos aprende hebreu e entra em contacto com as obras dos mais importantes pensadores judeus (Abraão lbn Ezra, Maimónides, Leão Hebreu, Chasdai Crescas, Delmedigo, Gersónides e os cabalistas).

1648. O Tratado da Vestfália pôe fim à Guerra dos Trinta Anos. As Províncias Unidas (das quais a Holanda faz parte) assinam um tratado de paz separadamente, em que é reconhecida a sua independência.

1652. Espinosa começa a seguir os cursos de Francis van den Enden, ex-jesuíta, livre-pensador, estudioso da filosofia clássica, poeta e dramauugo, com quem estuda latim, grego, ciências naturais, filosofia neoescolástica e filosofia e ciências cartesianas. Início da primeira Guerra Anglo-Holandesa, motivada pela disputa da hegemonia marítima, e que durará até 1654.

1653. Jan de Witt torna-se grande pensionário da Holanda.

1654. Morre o pai de Espinosa, de cujos negócios Espinosa e o seu irmão já se ocupavam; segue-se uma disputa com uma das suas irmãs pela herança do pai, à qual Espinosa acaba por renunciar, apesar de ter ganho de causa. Espinosa começa a lecionar na escola de Van den Enden.

1655. Começa a frequentar reuniões de judeus liberais críticos, como os seminários filosóficos promovidos pelo médico Juan de Prado e pelo poeta Daniel Ribera. É acusado de heresia pela comunidade judaica holandesa, fanática e ortodoxa, que se contrapõe aos judeus reconvertidos (ex-cristãos novos), de formação mais humanista e liberal.

1656. Um judeu fanático tenta assassinar Espinosa. Em julho Espinosa é excomungado e expulso da comunidade judaica de Amsterdam, por ter ideias consideradas heterodoxas e pelas suas ligações com livres-pensadores.

1656-58. Expulso da comunidade judaica, Espinosa entra em contacto com grupos cristãos: em primeiro lugar, com quakers ingleses e depois com os académicos (entre eles, políticos e editores), calvinistas não ortodoxos que, defendendo uma política de paz e uma economia liberal, se opõem aos partidários do orangismo, calvinistas ortodoxos a favor da dominação do Estado pela Igreja e que condenavam o desenvolvimento económico, por o considerarem contrário à Bíblia. Os académicos reuniam-se para estudar a Bíblia; alguns dos participantes desse grupo garantiram uma pensão vitalícia a Espinosa. Espinosa estabelece, também, relações com pessoas dos círculos científicos e culturais da Holanda.

1660. Muda-se para Rijnsburg. Escreve o Breve Tratado de Deus, do Homem e de
sua Beatitude. Para se sustentar, Espinosa dá aulas e torna-se polidor de lentes ópticas. A sinagoga de Amsterdam solicita oficialmente que as autoridades municipais denunciem Espinosa como uma ameaça à piedade e à moral.

1661. Inicia correspondência com Heinrich Oldenburg, que veio a ser secretário-geral da Royal Sociery (maior academia científica do século XVII). Inicia a redação da Ética, "síntese de seu pensamento ontológico, antropológico e ético, modelo perfeito do sistema filosófico consumado, construído não para cantar a glória de Deus, mas para expressar a unidade do mundo e os poderes do homem na construção da sua própria liberdade e da sua própria alegria". Esta obra, que só será publicada após a sua morte, terá grande importància e influência nas correntes filosóficas futuras.

1662. Conclui o Tratado sobre a Reforma do Entendimento, "uma crítica epistemológica da razão que introduz um autêntico método reflexivo", e que só será publicado após a sua morte.

1663. Muda-se para Voorburg. Publica os Princípios da Filosofia de Descartes, obra que consistia numa apresentação sistemática da filosofia de Descartes, com críticas, sugestões e análises de Espinosa para o seu aprimoramento, com Pensamentos Metafísicos. Espinosa inicia o contacto com o físico Huygens.

1665. Início da segunda Guerra Anglo-Holandesa (que durará até 1667).

1668. Jan de Witt estabelece aliança com a Inglaterra e com a Suécia, impedindo a invasão francesa.

1670. Espinosa muda-se para Haia, onde se mantém graças a uma pensão concedida pelo seu amigo Jan de Witt. Publica anonimamente o Tratado Teológico-Político, análise da religião popular e crítica contundente do calvinismo ortodoxo. Nele defende a liberdade da filosofia, sem interferências religiosas ou políticas, defende a separação entre Estado e Igreja, entre política e religião, e entre filosofia e revelação. Assim como a sua obra anterior, o Tratado recebe ataques violentos.

1671. Leibniz envia a sua obra Notitia Opticae Promoteae a Espinosa, e este envia a Leibniz o Tratado Teológico- Político.

1672. A França invade a Holanda, dando início à Guerra da Holanda. Jan de Witt e o seu irmão são linchados por serem considerados culpados da invasào francesa. Guilherme de Orange é nomeado statbouder. Amigos impedem Espinosa de se pronunciar publicamente contra este facto, temendo pela sua integridade.

1673. Para preservar a sua independência intelectual e a sua liberdade académica, Espinosa recusa a cátedra de filosofia que lhe é oferecida na Universidade de Heidelberg. Em maio, Espinosa parte para Utrecht, em missão diplomática, para tentar negociar a paz com a França, apoiado pelos regentes holandeses e a convite do próprio chefe militar francês, que acaba não o recebendo. Quando volta para Haia, consideram-no suspeito
de ser espião francês. Os franceses são finalmente expulsos da Holanda, após devastar grande parte de seu território.

1674. O Tratado Teológico-Político é proibido por um édito publicado pelo Estado holandês, juntamente com outros livros considerados contrários à religião do Estado.

1675. Espinosa conclui a Ética, mas desiste de publicá-la quando fica a saber que, devido a rumores de que preparava um livro em que demonstrava que Deus não existia, os representantes da Igreja calvinista apelaram ao governo para impedir sua publicação. Mesmo assim, a Ética circulou entre os seus amigos, em exemplares manuscritos. Leibniz faz várias visitas a Espinosa. Além dele, Espinosa também recebe o filósofo e cientista Von Tschirnhaus.

1676-77. Escreve o Tratado Político, "um estudo dos fundamentos existenciais (o desejo) e racionais (o pacto social) da política", em que expõe a sua teoria de Estado e projetos de constituição de estados monárquicos e aristocráticos, obra também publicada postumamente.

1677. Morre de tuberculose em Haia, em 21 de fevereiro. Publicação da Ética, das Correspondências, do Tratado sobre a Reforma do Entendimento, do Tratado Político e de um Compêndio de Gramática Hebraica.

1678. O governo holandês publica um novo édito proibindo a divulgação da obra póstuma de Espinosa.

1687. Publicaçào do Tratado sobre o Cálculo Algébrico do Arco-Íris e de Cálculo das Probabilidades."

Configurações da potência - TRATADO POLÍTICO - Espinosa


"O que Espinosa diz a este respeito na carta a Jarig Jelles antecipa a doutrina do TP e é, ao mesmo tempo, a aplicação coerente da sua ontologia à política. Na impossibilidade de encontrar a fundamentação em qualquer transcendência, e na impossibilidade de pensar os indivíduos como desapossados daquilo que os constitui, ou seja, a potência da natureza, a política somente pode ser pensada na imanência e como configuração específica do relacionamento entre esses modos da natureza que são os seres humanos. Antes de a política opor Espinosa a Hobbes, é a ontologia espinosana que impede que se pense a política a partir do indivíduo isolado, pois este, em boa verdade, é mais uma "opinião" do que algo que realmente se dê na natureza. No capítulo II do TP diz-se claramente que o direito natural somente pode conceber-se "onde os homens possuem direitos comuns".

Não se trata de uma verificação empírica ou de algo que se aprenda com a história. É a própria definição do indivíduo como modo da substância que obriga a concebê-lo obrigatoriamente em contexto relacional. A ordem da natureza é a ordem das conexões entre os seus modos, conexões estas que fazem de cada um deles uma teia de efeitos e de afetos, ao mesmo tempo que aumentam ou diminuem a sua independência no contexto em que se encontra, tornando-o mais sui juris ou mais a/ferii juris, mais independente ou mais dependente e submisso. O jurídico, enquanto ordem e ordenação das potências individuais e coletivas, é também expressão da natureza. Desse ponto de vista, a multidão já está presente e começa a emergir logo no próprio conceito de individualidade, sendo por essa razão o único horizonte em que é possível pensar o político. É este o motivo por que o direito do estado é definido no TP como potência da multidão, e não como potência subtraída à multidão, à maneira hobbesiana. Negada a consistência ontológica de um operador que artificialmente constituiria o direito comum a partir da cedência por cada um do seu direito individual, é agora a potência ou direito natural dos indivíduos associados que se constitui, ela própria, em direito civil.

Com efeito, Se dois se põem de acordo e juntam forças, juntos podem mais, e consequentemente têm mais direito sobre a natureza do que cada um deles sozinho; e quantos mais assim estreitarem relações, mais direito terão todos juntos.;

Esta forma de encarar o político como um processo relacional e como continuação do estado de natureza não equivale, porém, a extrair a conclusão aristotélica segundo a qual o homem seria naturalmente sociável. pelo contrário, trata-se de um processo que é tanto de associação como de conflito, em que o direito de cada um significa sempre a sua atual e efetiva independência perante os demais.

Se há acordo entre dois ou mais homens, "se a multidão, como diz Espinosa, convém naturalmente, não é sob a direção da razão mas do afeto comum"". Ora, o afeto comum, tal como o afeto individual, é por essência perecível, inconstante e mutável. Considerar, pois, a natureza como horizonte inultrapassável do político significa integrar o político num horizonte de conflitualidade e contingência, onde não obstante os homens se unem de forma mais ou menos duradoura consoante os afetos comuns que estabilizam e predominam em dado momento. É aí, nesse preciso horizonte, que Espinosa se encontra com Maquiavel.

Na verdade, afirmar a equivalência do direito e da potência implica admitir, no agregado social, uma dinâmica de constituição do direito comum enquanto forma de preservação dos conatus individuais, ou seja, do esforço que cada um faz para perseverar na existência. É do interesse de cada um juntar-se àqueles cuja presença faz aumentar a sua própria potência e o seu bem-estar. É igualmente do interesse de cada um opor-se àqueles que lhe diminuem a potência e reduzem o bem-estar. Desse modo, e através desta dualidade matricial em relação a todo o fenómeno afetivo, originam-se aproximações e exclusões, há grupos que se formam e grupos que se combatem, há paz e há guerra, há novos "corpos", enfim, que se constituem e que remodelam constantemente a paisagem social."


sábado, 23 de agosto de 2014

O Banqueiro Anarquista

``Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro - um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um - adquiri-lo, adquiri-lo em quantidades bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase
atual - a comercial e bancária, meu amigo - do meu anarquismo.''
(...)
``Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o processo; empreguei tudo quanto há - o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?! O anarquista estúpido, que atira bombas e dá tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas doutrinas não incluem a pena de morte. Ataca uma imoralidade com um crime, porque acha que essa imoralidade pede um crime para se destruir. Ele é estúpido quanto ao processo, porque, como já lhe mostrei, esse processo é errado e contraproducente como processo anarquista; agora quanto à moral do processo ele é inteligente. Ora o meu processo estava certo, e eu servia-me legitimamente, como anarquista, de todos os meios para enriquecer. Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as.''
O Banqueiro Anarquista
Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ilegalidade

Acórdão do Tribunal Constitucional nº 534/2014 de 28-07-2014
-
III - Decisão

      18 - Pelos fundamentos expostos, o Tribunal Constitucional decide:

            a) Declarar, com força obrigatória geral, a ilegalidade, por violação do artigo 67.º, alínea e), do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, das normas dos artigos 6.º, n.º 2, 20.º, n.º 1, 42.º, n.º 2 e 46.º, n.º 1, da lei-quadro das fundações, aprovada pelo artigo 2.º da Lei n.º 24/2012, de 9 de julho, na medida em que a competência nelas atribuída ao Primeiro-Ministro abrange o reconhecimento de fundações privadas com sede na Região Autónoma dos Açores;
            b) Declarar, com força obrigatória geral, a ilegalidade, por violação do artigo 49.º, n.º 3, alínea b), do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, das normas das alíneas a) a g), do n.º 2, do artigo 53.º da mesma lei-quadro das fundações, na parte aplicável às fundações públicas regionais criadas pelas Região Autónoma dos Açores; e
            c) Não declarar ilegais as normas contidas nos artigos 25.º, n.º 1, 53.º, n.º 2, proémio, na parte em que se estatui a aplicação às fundações regionais do disposto na lei-quadro dos institutos públicos, e 57.º, n.ºs 1 e 2, todos da lei-quadro das fundações, aprovada pelo artigo 2.º da Lei n.º 24/2012, de 9 de julho.


Enviado a partir de BDJUR* - Diário da República.
*BDJUR
Códigos, legislação e jurisprudência, actualizados diariamente e ainda um dicionário jurídico e formulários, com a qualidade Almedina.


Jorge Barbosa

sexta-feira, 18 de julho de 2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Duas Objeções ao Mercado Livre

“Objecções ao mercado livre

A primeira objecção sustenta que, para quem tem alternativas limitadas, o mercado livre não é assim tão livre. Vejamos um caso extremo: um sem-abrigo que dorme debaixo de uma ponte pode ter escolhido, de certa forma, fazê-lo; mas não podemos, sem mais, considerar que a sua escolha foi livre. Para saber se a escolha dele reflecte uma preferência por dormir ao ar livre ou uma incapacidade de pagar um apartamento, temos de saber algumas coisas sobre as circunstâncias dele. Fá-lo por opção própria ou por necessidade? A mesma pergunta pode ser feita em relação às escolhas de mercado em geral, incluindo em relação às escolhas que as pessoas fazem quando aceitam diversos trabalhos. Fazem-no por opção ou por necessidade?
A segunda objecção relaciona-se com as noções de virtude cívica e de bem comum. Uma das declarações mais famosas do argumento cívico foi proferida por Jean-Jacques Rousseau, o teórico político iluminista do século XVIII. Ele afirma que transformar um dever cívico num bem comercializável não aumenta a liberdade, muito pelo contrário, debilita-a. A forte noção de cidadania de Rousseau, e a sua visão prudente dos mercados, podem parecer distantes dos pressupostos políticos dos dias de hoje.
Temos tendência para considerar o Estado, com as suas leis e regulamentos obrigatórios, como o domínio da força, e os mercados, com as suas transacções voluntárias, como o domínio da liberdade. Rousseau diria que é exactamente o contrário”.

Excerto de:
Jorge Nunes Barbosa. “Temas de Filosofia.” JB, 2012. iBooks.

Para ser útil, a linguagem tem de ser geral

“Para que cumpram esta missão, as palavras têm de ser gerais, ou comuns. Se, para cada mesa que exista, ou tenha existido, ou venha alguma vez a existir, tivéssemos de utilizar um nome próprio, ser-nos-ia simplesmente impossível comunicar. Para ser útil, a linguagem tem de ser geral. Mas sendo geral, distancia-se do que pensamos intimamente. Deste modo, não trai só o pensamento dos outros, mas também o nosso. Obrigando-nos a utilizar palavras gerais, impede-nos de aceder à realidade do nosso próprio pensamento. Assim, a linguagem trai o pensamento, porque se mostra incapaz de cumprir a tarefa que lhe foi confiada: exprimir adequadamente a mensagem que tenha sido previamente concebida intimamente. Esta traição está associada à sua generalidade estrutural.
Mas se a linguagem não consegue dizer o que pensamos do modo como o pensamos, será que acaba por dizer outra coisa?”
Excerto de:
Jorge Nunes Barbosa. “Temas de Filosofia.” JB, 2012. iBooks.

A linguagem pode trair o pensamento?

“Significará isto que a linguagem pode trair o pensamento? Trair é antes de mais decepcionar uma relação de confiança. Se a linguagem nos pode trair, é porque lhe confiamos a tarefa de exteriorizar um pensamento íntimo. Estarão as palavras à altura desta tarefa? Merecem a nossa confiança? Não haverá na linguagem uma formalização, uma racionalização que nem sempre estão de acordo com o que pensamos intimamente? Devemos, então, não confiar na linguagem? Pois, se é possível que nos traia deformando o que queremos dizer, a linguagem pode, o que é muito pior, trair-nos fazendo-nos dizer o que não queremos dizer, por vezes mesmo aquilo que não sabemos. Nos dois casos - a traição deforma um pensamento, ou revela um pensamento que não temos - está implícito que algum pensamento se tenha formado fora da linguagem e antes dela. Todavia, pensar não é só sentir interiormente. O pensamento designa também um processo de raciocínio que permite agenciar proposições e ideias no modo lógico. Assim, o pensamento distingue-se do sem sentido, do informe e do irracional.”
Excerto de: Jorge Nunes Barbosa. “Temas de Filosofia.” JB, 2012. iBooks.https://itunes.apple.com/pt/book/temas-de-filosofia/id517943141?mt=11