quarta-feira, 2 de abril de 2014

25 de Abril - A Revolução da Classe Média

Um fenómeno interessante e clarificador está há já algum tempo a manifestar-se em Portugal.
O 25 de Abril correspondeu a uma alteração de regime político, suportada por uma classe média culta que apostava, apesar de detentora de recursos financeiros variáveis, na educação, universitária de preferência, dos seus filhos. O verão quente de 1975 não obteve apoio popular porque o apoio à revolução era assegurada por essa pequena burguesia que queria paz e condições de segurança para si e para o país. Era este o seu conceito básico de desenvolvimento.
Representantes públicos (músicos e outros artistas, sobretudo) desta pequena burguesia esclarecida e patriótica, como diria o MRPP na altura, aparecem agora a manifestar o seu desencanto. Há até quem emigre por isso. A narrativa destas figuras públicas de reconhecido e merecido mérito orienta-se para uma auto-justificação desnecessária, mas compreensível: eles não eram indigentes, o pai era médico, a mãe era doméstica mas sabia tocar piano e tinha uma enorme sensibilidade artística, tal como os avós e por aí fora. Se o seu estilo de vida e as suas preocupações artísticas os afastavam dessa pequena burguesia, a verdade é que dependiam dela para viver com qualidade.
Agora, estão preocupados com a situação do país. Não foi para que um governo, manifestamente muito mal formado do ponto de vista académico, se dedicasse a destruir a classe média que foram tão generosos na sua juventude.

Acontece que aqueles que não foram socialmente promovidos pelo 25 de Abril e que se mantêm em condições de vida miseráveis também não têm nada a agradecer ao regime democrático.

Esta combinação de desencantados é muito mais potencialmente revolucionária do que a pobreza de espírito do governo de ditadura anterio a 1974. Só falta uma guerra colonial. Talvez não falte, só que seria suposto que os colonizados não fossem os portugueses.

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